Sakamoto: Vorcaro usou mulheres como moeda porque homens aceitam o pagamento

Atualizado em 8 de abril de 2026 às 20:41
Daniel Vorcaro, o mandachuva em escândalo do Banco Master.
Foto: Ana Paula Paiva/Valor

Por Leonardo Sakamoto, no Uol

Há dois tipos de networking. O primeiro acontece à luz do dia: reuniões formais, agendas públicas, atas registradas, cafezinho queimado e doce. O segundo dispensa transparência, mas não champanhe, hotéis de luxo, viagens, jatinhos. E, no caso do Banco Master, até festas bunga-bunga com mulheres tratadas como parte do pacote.

Daniel Vorcaro entendeu algo que muitos fazem de conta não ver: alguns tipos de networking funcionam porque, nós, homens, o aceitamos de bom grado.

Reportagem de Alexa Salomão, Joana Cunha e Dani Braga, na Folha de S.Paulo, aponta hoje que o ex-dono do Master estruturou eventos luxuosos com a presença de autoridades públicas, com passagens internacionais, hospedagens em hotéis cinco estrelas e deslocamentos em aeronaves privadas, bancando a logística de mulheres (inclusive estrangeiras) para serem oferecidas como parte da estratégia de negócios.

O próprio Vorcaro deixou isso claro à sua então noiva, que o questionou pelos contatos com profissionais do sexo. “Fazia parte do meu ‘business’. Nunca te escondi o que fiz, e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo”, escreveu para ela, em mensagem registrada em um dos seus celulares.

Os encontros ocorriam em dias úteis, para que os convidados voltassem às suas famílias nos finais de semana.

E aqui começa a parte desconfortável: ele só fez isso porque sabia exatamente com quem estava lidando. Sabia que homens em posição de poder político e econômico aceitariam mulheres como pagamento.

A maior prova que a sociedade tem um problema é que ao invés de se irritarem com os homens que fazem negócios entre quatro paredes tendo mulheres como moeda de troca, irritam-se com as profissionais do sexo envolvidas.

O problema não está nelas, mas no sistema que transforma autonomia em instrumento de poder masculino.

Porque, no arranjo montado por Vorcaro, as mulheres não estavam participando como iguais em um networking. Elas eram parte da negociação, inseridas em um circuito em que sua presença funcionava como lubrificante social, um facilitador de relações entre homens que decidem os rumos do país.

Não estamos falando de moralidade sexual, mas de um modelo de corrupção profundamente enraizado no machismo estrutural.

Porque ele parte de uma premissa simples e brutal, a de que homens poderosos respondem a esse tipo de estímulo. Que aceitam, naturalizam e até esperam esse tipo de ambiente. Que veem mulheres como parte do cenário, não como protagonistas.

E o mais incômodo: essa premissa não surgiu do nada. Ela foi construída ao longo de séculos de cultura política masculina, em que decisões importantes são tomadas em espaços informais, fechados, muitas vezes regados a excessos e à exclusão sistemática de mulheres enquanto sujeitos de poder.

Quando esse tipo de “entretenimento de luxo” vira ferramenta, quem não joga esse jogo fica de fora. E quem joga, reforça as regras.

Por isso, focar apenas no banqueiro criminoso é confortável, mas insuficiente.

A pergunta que realmente importa é outra: por que isso ainda funciona?

Talvez porque ainda haja homens demais no poder dispostos a trocar decisões públicas em troca de experiências privadas. Ou porque a fronteira entre o público e o privado continua sendo convenientemente borrada quando interessa a quem tem cascalho. Ou ainda porque, no fundo, ainda tratemos tudo isso como “folclore”, “job”, “after”.

Ou porque admitir a verdade é a coisa mais difícil: Vorcaro não apenas comprava políticos usando mulheres, ele operava em um mercado onde nós, homens, já determinamos que elas são moeda de troca.

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