
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
A indicação de Wagner Moura ao Oscar de Melhor Ator por “O Agente Secreto” vem com o lembrete de que a classe artística brasileira passou a última década sendo chamada de “mamateira”, “parasita” e mandada para Cuba por uma horda de patriotas de algoritmo. E é justamente ela, e não a sacrossanta seleção brasileira, que coloca o nome do país no topo do mundo.
Não me leve a mal. Eu amo futebol. Mas é inegável que, nos últimos anos, o “país do futebol” está virando o “país do cinema”.
O Brasil se acostumou a procurar catarse coletiva nas quatro linhas. Mas, enquanto a bola passou a devolver frustrações, o cinema resolveu fazer o serviço que o futebol abandonou: oferecer orgulho, espanto e aquela rara sensação de que ainda somos capazes de contar boas histórias. E de fazê-las chegar ao mundo.
Sim, o Brasil que dá orgulho em 2026 não veste a camisa amarela da CBF, sequestrada por quem se cobre com bandeira dos Estados Unidos no aniversário da independência do Brasil. O país que funciona de verdade veste o figurino de época de Kleber Mendonça Filho da Recife dos anos 1970 para lembrar que, sim, nós temos talento e densidade.
Enquanto muitos de nossos “meninos” gastam mais tempo em se defender do fisco europeu, promover cruzeiros em alto-mar, ajudar bets a tungar o bolso dos brasileiros ou escolher o filtro ideal para o pedido de desculpas no Instagram após a enésima derrota vexatória, o cinema nacional fazia o trabalho duro de carregar a autoestima do país nas costas.
O futebol brasileiro, outrora nosso “soft power”, virou um balcão de negócios gerido por cartolas que fariam personagens de filmes de máfia corarem de vergonha. A seleção foi tomada por individualistas que, salvo boas exceções, estão desconectados da realidade do torcedor que pega ônibus lotado, não consegue pagar o ingresso de uma arena gourmetizada e sente que aquela falta de esforço nos gramados não nos representa.

Já o cinema, que sofreu com ataques de mentiras e ameaças, teve verbas sequestradas, viu a Ancine ser tratada como inimiga de Estado, responde com trabalho. A indicação de Wagner Moura, mas também a do próprio longa às categorias de Melhor Filme Internacional, Melhor Filme e Melhor Elenco não é um presente, não é um favor, não é uma conspiração, é a consequência de trabalho. Vocês não queriam meritocracia? Taí.
Sem contar que Wagner chegar ao Dolby Theatre, no próximo dia 15 de março, interpretando um personagem em meio à ditadura civil-militar de 1977 é um tapa na cara do negacionismo histórico que tenta reescrever nosso passado recente, tal como ocorreu com Fernanda Torres e Ainda Estou Aqui. É pedagógico que a alegria nacional venha de filmes que nos obrigam a pensar, e não de um esporte que, ultimamente, nem consegue distrair.
Claro que nós não precisamos de validação estrangeira para saber que nosso cinema é gigante, mas é divertido ver a Academia se render ao óbvio.
Wagner Moura, que já deixou de ser “apenas” um ator talentoso para se tornar um corpo político em cena, encarna todo esse movimento. Sua indicação não celebra um herói domesticado, mas um personagem que carrega as marcas do país real, aquele que raramente cabe nos comerciais de intervalo do Brasileirão. É o tipo de reconhecimento que não nasce do acaso nem do marketing, mas de um cinema que prefere o risco à acomodação.
Há algo de profundamente simbólico nisso tudo. Quando a torcida se vê órfã de ídolos em chuteiras, encontra no cinema um espelho mais honesto. Não porque o cinema seja puro, não é, mas porque, diferente do futebol-espetáculo, ele ainda aceita a complexidade como valor.
Talvez seja por isso que, nos últimos anos, a bandeira tenha sido erguida mais vezes em festivais do que em estádios. E isso é saudável. Porque um país que aprende a se reconhecer nas telas, com todas as suas sombras, pode até perder jogos, mas ganha linguagem, memória e voz. E isso, convenhamos, dura muito mais do que 90 minutos.