
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Wagner Moura venceu o Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama por “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, que também levou o prêmio de melhor filme em língua estrangeira. Wagner é hoje um dos nomes brasileiros mais conhecidos no cinema mundial, não apenas como ator e diretor, mas também como um cidadão engajado em melhorar o mundo em que vive.
Você pode não gostar de cinema, nem curtir o Wagner. Mas um compatriota reconhecido no coração da indústria cultural mais poderosa do planeta é o tipo de notícia que, em qualquer país, geraria um momentâneo consenso de orgulho coletivo. Mas o Brasil vive tempos estranhos. E, enquanto o ator subia ao palco para receber o prêmio, havia gente por aqui torcendo contra. Um povo que se diz patriota, mas que não hesitou em apoiar tentativa de golpe de Estado, flertar com ditadura e relativizar a democracia quando ela deixou de servir aos seus interesses.
E não é porque Wagner não é bom ator, ninguém consegue sustentar essa acusação com seriedade. A questão para alguns é que ele nunca pediu permissão a general, não se ajoelhou a político autoritário, nem fingiu neutralidade diante de golpismo. Para uma turma, o problema nunca foi Hollywood, o “globalismo” ou a tal “elite cultural”. O problema é alguém pensar por conta própria.
Ele conta com uma longa produção, na frente e atrás das câmeras, que tem levado o Brasil e o mundo a refletirem sobre si mesmos. Convida a pensarmos por conta própria, o que constrói indivíduos, mas destrói rebanhos.
Amar o Brasil não significa dizer amém a líderes de massa, isso é subserviência. Muito menos se enrolar com bandeira dos Estados Unidos feito panqueca, pedindo intervenção militar contra o próprio país no dia em que era celebrada a sua independência. Para muita gente, a pátria é um clube fechado. Quem não bate continência ideológica vira traidor automático.
Qualquer pessoa que não esteve presa em uma caverna nos últimos anos, acreditando que sombras eram a realidade, viu Wagner criticar governo do PT (o último episódio, durante o trâmite da lei do streaming). Dizer que ele é um carimbador de governos é, no mínimo, falta seletiva de memória.
E a necessidade de preservá-la, lembrando do passado para evitar que ele volte a acontecer, estava presente no discurso de agradecimento de Wagner Moura. “O Agente Secreto é sobre memória, ou a falta dela, e trauma geracional. Eu acho que, se o trauma pode atravessar gerações, valores também podem. Isso vai para quem está firme nos seus valores em momentos difíceis”, disse.
A mesma falta de memória que engravida o presente com os golpes mal resolvidos e impunes do passado. É pertinente ver “O Agente Secreto” e Wagner Moura recebendo o Globo de Ouro logo após o Supremo Tribunal Federal ter condenado e enviado à prisão os líderes da trama golpista. É um país curando sua feridas, com a cultura exercendo um papel fundamental nesse processo.
E é pertinente enquanto os Estados Unidos vivem um desafio de lutar contra um governo cada vez mais autoritário, que mata cidadã inocente com sua agência de imigração dentro de seu território e bombardeia vizinhos fora.
Enquanto Wagner agradecia ao cinema, aos colegas e ao público, com a elegância de quem sabe o peso simbólico daquele momento, parte desses “patriotas” assistia ao próprio filme de terror particular. Já haviam vivido A Hora do Pesadelo quando Fernanda Torres levou o Globo de Ouro por atriz em filme de drama, no ano passado, por sua atuação em “Ainda Estou Aqui” — que também tratava de memória e ditadura.

Agora, foi a vez de viverem a sequência, em que o sinistro não sai dos sonhos, mas do espelho. O pesadelo não é Wagner vencer, mas perceber que o Brasil real, que é plural, crítico, criativo, segue existindo apesar da tentativa de reduzi-lo a um quartel moral.
Esse prêmio não é apenas sobre atuação. É sobre liberdade de expressão, circulação cultural e a constatação incômoda de que o mundo não gira em torno da paranoia. Wagner venceu porque trabalhou, estudou, insistiu e teve talento. Não foi “lacração”, não foi complô, não foi conspiração marxista. Foi mérito. Palavra que essa gente adora pronunciar, mas odeia reconhecer quando não beneficia os seus.
“Para todo mundo no Brasil assistindo a isso agora, viva o Brasil, viva a cultura brasileira”, disse ele, em português, ao final.
No fim das contas, o Globo de Ouro é de Wagner Moura. O chilique ficou para quem apostou contra a democracia, perdeu nas urnas, perdeu no Supremo e agora perde também no campo simbólico. Para esses, a noite não foi de gala. Foi de ranger de dentes, rolar na cama e insônia política. Porque o Brasil que eles tentaram sequestrar segue produzindo arte, talento e reconhecimento internacional, sem pedir desculpa, sem pedir licença.