Santa Maria, dois meses depois

Os pessimistas estavam certos: nada mudou.

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Passados dois meses da Tragédia de Santa Maria, uma coisa ficou clara: os pessimistas tinham razão. Nada aconteceu. Nem nada vai acontecer.

Não mudou e, claramente, não vai mudar a nossa atitude em relação à vida noturna. E, francamente, se não mudou com isso, não muda com nada.

O primeiro erro que deveria ser corrigido, apontado desde o primeiro dia de cobertura aqui no Diário, é a existência de comandas pagas no fim da noite. Sem elas, o caminho estaria livre para sair, as portas estariam desimpedidas.

Entre outras coisas, isso poderia mudar até a arquitetura dos lugares. Os caixas da Kiss, por exemplo, ficavam no caminho da saída, naturalmente. Construíram-se caixas onde deveria haver portas de emergência. Outra coisa: quando a pessoa já pagou pelo consumo, as portas de emergência podem ficar destrancadas – o que não acontece hoje. Quando elas existem, ficam trancadas para que as pessoas não saiam sem pagar. Pode testar na sua próxima balada: dê uma empurradinha na porta de emergência e veja se ela abre.

Como expliquei na ocasião, as comandas têm um único objetivo: aumentar o consumo. Ponto final. Com a comanda, o cliente não sente que está consumindo. Todo o resto é papo.

O segundo erro gravíssimo: nossa preferência pelo silêncio à segurança. Aí é mais complexo, afinal não envolve só os consumidores das casas, mas toda a sociedade. Quero dizer, se você não gosta da segurança de um lugar, pode simplesmente não voltar – você deixa o mercado se auto-regular. Mas quando o assunto é barulho, envolve gente que já costuma não querer essas baladas por perto.

Mas vejamos o resultado disso: alguém aí notou nas imagens a grossura da parede da Kiss? Ela servia para segurar o som dentro da casa. Não é a espuma que faz essa função. Esse material tão citado nas reportagens serve apenas como tratamento acústico – diminui a reverberação dentro do local. O que faz o isolamento é lã de vidro (ou de rocha) e paredes de alvenaria.

Por isso paredes tão grossas. Por isso não havia janelas.

Existe um outro problema quando falamos em acústica: vazamento. Som é como água – se há um buraco, ele vaza. Quanto mais portas, mais vãos; quanto mais vãos, mais vazamento. Janelas, ventilação, qualquer coisa que não seja parede – dupla de preferência –, vaza.

Seguindo essa lógica, se você quiser fazer silêncio, não fará portas.

Tudo bem. Entendo se você estiver pensando que, dane-se, se o cara quiser fazer uma balada, tem que se virar com isso. Mas qual mensagem nós, sociedade, estamos passando quando fazemos uma pressão gigantesca por leis do silêncio, ficamos neuroticamente chamando a Policia por cada barulhinho mais alto que ouvimos, e não fazemos nada quando vemos que faltam extintores de incêndio numa balada?

Essa pressão toda levou as multas contra ruído a custarem até R$ 30 mil reais. O dono de um pequeno bar que leva duas dessas já quebrou automaticamente.

A multa por falta de alvará é de aproximadamente R$ 3 mil. Dez vezes menor. Então o que o dono do pequeno bar faz? Tira seu alvará ou constrói paredes?

Não estou falando que isso justifique construir paredes no lugar de saídas de emergência. O que estou falando é que a vida é mais cara que o barulho, e quando nós cobramos tão menos por ela, tem alguma coisa muito desequilibrada no Estado, nas autoridades e em nós mesmos.

Por isso, eu não consigo pensar em nada que não seja desejo por maldição eterna à nossa covarde complacência, razão pela qual nada aconteceu e nada vai acontecer. Num futuro incerto, a lápide da próxima vítima de algo parecido deveria ter escrito “morreu porque alguém resolveu prender o fodido do cantor ao invés de resolver um problema de verdade”.