
São Paulo perde mais um pedaço de sua memória para a especulação imobiliária. Como escreveu Caetano em “Sampa”, é “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”.
Ultimamente, só destrói. E não apenas fisicamente, mas uma parte do espírito.
O Teatro Procópio Ferreira, um dos espaços culturais mais conhecidos da cidade, na Rua Augusta, nº 2.823, começou a ser posto abaixo.
Fechado desde novembro do ano passado após 77 anos de funcionamento, ele ficou marcado por espetáculos populares — especialmente nos anos 1990 — e por ter sido o cenário do programa “Sai de Baixo”, exibido pela TV Globo entre 1996 e 2002.
O imóvel dará lugar a um novo empreendimento imobiliário, seguindo um movimento que vem redesenhando rapidamente a paisagem da Augusta.
A transformação da região não é isolada. São as diretrizes do maldito Plano Diretor e da Lei de Zoneamento. A prefeitura definiu a área como eixo de desenvolvimento urbano, com incentivo à construção de prédios residenciais. Segundo o consultor em políticas urbanas Gabriel Rostey, ouvido pelo G1, a proposta é atrair mais moradores para uma área já dotada de infraestrutura.
“O teatro continua cheio, com agenda lotada. Não perdeu interesse nem demanda”, afirmou Rostey. “Enquanto não houver um inventário feito pela prefeitura, com participação da sociedade, para descobrir quais locais devem ser preservados, isso vai continuar acontecendo”.
Após a retirada da fachada, circularam informações de que o teatro teria sido demolido. A Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) alega que não há autorização para a demolição do imóvel e que o pedido de alvará foi indeferido em julho de 2025.
É uma perda concreta. A cidade se afasta de sua identidade, perde referência, fica ainda mais feia e irreconhecível — mas o metro quadrado está valorizado.