São Paulo deveria ser a cidade do grafite

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Entrou em cartaz na última sexta-feira o filme “Cidade Cinza”, dirigido por Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo. Um documentário sobre a cena do grafite paulista e sua guerra contra o cinza.

O cinza não é metafórico da selva de pedra. É a cor imposta por um serviço terceirizado pela prefeitura de São Paulo que despeja com jatos de tinta cinza todas as pichações e grafites que não agradem aos “críticos de arte” da empresa terceirizada. Sim, o critério é subjetivo e as justificativas do porque manter-se um e deletar o outro traço são os momentos mais hilariantes do filme. Se não fossem uma agressão, claro.

O serviço custa para a prefeitura e é revoltante que uma cidade como São Paulo, com sua máquina pública dispendiosa e ineficiente, com seus altos impostos, tenha uma mínima energia que seja direcionada para se apagar grafites. A certa altura do documentário, o artista Nunca dá uma dica tão primária quanto sábia: “Peguem esse dinheiro que gastam com tinta e limpem bueiros…” Alguém discordaria?

O tom cinza, nuance abrangente para sabedorias e moderações frente aos radicais pretos e brancos, só emburrece uma cidade já tão violentada urbanísticamente. O colorido dos grafites pode dar uma outra paisagem hoje escondida, camuflada no tom sobre tom. Qual o efeito do grafite sobre quem está parado no trânsito e olhando a “paisagem”? E qual o efeito sobre esse mesmo motorista que, de um dia para outro, viu as frases de Gentileza cobertas de cinza no Rio de Janeiro? Terá mesmo sido um alívio?

A linguagem dos grafiteiros paulistas já é reconhecida internacionalmente, com obras encomendadas até para a fachada da Tate Modern e só teríamos a ganhar se assumíssemos isso como algo peculiarmente nosso. Um diferencial turístico. Amsterdã é a cidade das bicicletas? Paris é a cidade luz? São Paulo deveria ser a cidade do grafite. Quanto de turismo isso não atrairia? Quantos não encontrariam campo de trabalho? Se a especulação imobiliária e a prioridade para os carros já transformou a cidade nesse caos, vamos colorir tudo. Quem disse que pioraria? Quem sabe o caos não passaria a fazer sentido?

Colorido ou rabiscado?

Duas questões são sempre levantadas quando o assunto vem à baila. O que é grafite e o que é pichação (numa diferenciação entre arte maior e arte menor onde os primeiros seriam até incentivados a serem mantidos, preservados) e os locais apropriados e permitidos para a prática.

A busca por um acordo sobre espaços permitidos é, a meu ver, tão descabida como tentar se estabelecer um local fixo (o sambódromo, por exemplo) para protestos. Grafite e pichação são formas de expressão semelhantes aos protestos. São jorros de rebeldia. Restringí-las a um espaço, impor limites, mantê-los confinados, implica retirar toda sua força de expressão que é exatamente o interagir com a cidade. Fazer reserva de espaços com apoio/incentivo oficiais de governos e prefeituras é dar campo para a criação de lobys e privilegiar alguns artistas.

Não me parece tão difícil estabelecer onde pode e onde não pode. Onde é propriedade privada não pode (ou pode com autorização e até mesmo remuneração), além de ser proibido também em monumentos, fachadas de imóveis tombados, museus etc. Mas onde é público não é de ninguém certo? Quem é o dono de um pilar de viaduto? Ou de um poste de rua? Quem pode estabalecer que aquele imenso muro ladeando uma avenida fica melhor todo em branco ou em cinza do que multicolorido? Quem define a paleta oficial de cores da cidade? Já que temos postes em vez de fiação subterrânea por que não todos rabiscados como totens?

Daí chegamos na diferenciação tão debatida entre picho e grafite. Como dizem Os Gêmeos, grafite e pichação não se diferenciam e têm um fundo de transgressão em comum. Está no DNA de ambos e a simbiose é vital. Não se pode criar uma linha entre as formas de expressão até para não cair na forma primária e rasteira adotada pelos fiscais da prefeitura: onde há letras é pichação, onde há desenho é grafite. Brutal e ignorante.

O risco de se elevar o grafite para a categoria de arte implica numa outra questão levantada acerca das restaurações das obras. Não devem ser restauradas nem mantidas. Devem ser recobertas por algo novo depois de um tempo, a critério dos próprios pichadores e grafiteiros. Preservar ou restaurar é contra a natureza e dinâmica do grafite. Quem acompanha a guerra entre artistas no buraco da Paulista desde os anos 80 sabe que chegamos a esse estágio exatamente pela concorrência entre eles. A evolução dava-se dentro do túnel e ganhava a cidade.

A melhor lição dada sobre isso foi a reação da fotógrafa Raquel Brust que teve suas fotos gigantescas “pichadas” debaixo do Minhocão recentemente. Considerou normal e chamou de “intervenção” pois é disso mesmo que se trata. A partir do momento em que está na rua, incorpora-se à cidade e portanto está submetida às suas idiossincrasias.

A discussão entre “picho feio” e “grafite bonito” deve ser algo deixado pela seleção natural que a disputa pelo espaço e pelo estilo acarretam. Nenhum artista nasce pronto. Todo mundo aprende a pintar iniciando por natureza morta. Você compra natureza morta? Então…

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