São Paulo vai ganhar um “dia de combate” a algo que não existe, a cristofobia. Por Hermes Fernandes

Eduardo Tuma, o pai da ideia
Eduardo Tuma, o pai da ideia

 

Esqueça o Natal! A partir deste ano, a tradicional data cristã passa a ser celebrada como o “Dia de Combate à Cristofobia”, pelo menos na maior cidade da América do Sul. O projeto lei 306/2015, de autoria do vereador Eduardo Tuma (PSDB) foi aprovado na Câmara Municipal de São Paulo em votação simbólica na noite da última terça-feira, 7. Dependendo da sanção do prefeito Fernando Haddad (PT), o dia passará a constar do calendário oficial de eventos do município.

Tuma, que além de presbítero na Igreja Bola de Neve, também é membro da Comissão de Direitos Humanos do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), e alega estar cumprindo seu papel de defender minorias de perseguições.

Ele citou como exemplo o caso da transexual Viviany Beleboni, que encenou a crucificação de Cristo em plena Parada LGBT no ano passado em manifestação contra a homofobia. “Se se considera a homofobia um crime, e é um crime que se deve punir, a Cristofobia também é um crime e também deve ser punida”, disse o vereador.

“Você tem uma minoria sendo tolhida de seus direitos, como liberdade de expressão e, até mesmo, às vezes, liberdade de culto. O cristão, hoje, não pode falar qualquer coisa relacionada à homoafetividade que ele é caracterizado como um homofóbico. Ou seja: falou que é contrário à prática da homossexualidade, ele é homofóbico. Você tem essa questão sendo muito aprisionada”, afirmou Tuma, que também defendeu que evangélicos não sejam impedidos de discutir política durante os eventos religiosos (tenho a impressão que aqui reside a verdadeira razão da proposta). Se pegar em SP, possivelmente repercutirá em todo o país; não demora muito, vai se tornar lei em âmbito nacional.

Como cristão, não vejo nisso qualquer motivo de comemoração. Ao contrário, sinto-me envergonhado. Por nos afastarmos da proposta original da mensagem de Jesus, perdemos o senso de ridículo, tornando-nos numa igreja caricata, bem diferente daquela com a qual sonhou seu fundador.

Não existe Cristofobia. Nem os escândalos perpetrados pela cristandade ao longo da história conseguiram macular a imagem de Jesus. Mesmo as culturas mais hostis ao cristianismo nutrem um profundo respeito pela figura de Cristo. Até ateístas admitem o alto nível da ética proposta em seus ensinamentos. Pergunte a um umbandista, a um candomblecista, ou mesmo a um muçulmano, o que ele pensa acerca de Jesus. Faça a mesma pergunta a um ativista LGBT. Apesar de nós, cristãos, Jesus segue impoluto.

Gandhi, um dos maiores pacifistas de todos os tempos, embora hindu, considerava-se um profundo admirador de Cristo. Em uma de suas contundentes declarações acerca da religião cristã, o Mahatma confessou: “Não conheço ninguém que tenha feito mais para a humanidade do que Jesus. E fato, não há nada de errado no cristianismo. O problema são vocês, cristãos. Vocês nem começaram a viver segundo os seus próprios ensinamentos.”

A reação da sociedade aos abusos feitos em nome de Jesus está mais para uma justificável gospelfobia. Como não ser gospelfóbico diante de uma bancada evangélica que se associa ao que há de mais retrógrado, fisiologista e corrupto na política brasileira? Como não ser gospelfóbico ante o discurso fundamentalista que se recusa a reconhecer qualquer tipo de família que não se ajuste aos moldes tradicionais?

Como não ser gospelfóbico diante dos exorbitantes cachês cobrados por cantores gospel? Como não ser gospelfóbico quando pastores figuram na lista da revista Forbes? Como não ser gospelfóbico com os frequentes boicotes a produtos, lojas e novelas propostos por figuras proeminentes do mundo evangélico? Eu poderia citar muitas outras razões, mas prefiro não me estender.

Pedro, o apóstolo, já havia nos deixado de sobreaviso, que assim como houve no passado “falsos profetas”, haveria também entre nós “falsos mestres” e que muitos seguiriam as suas dissoluções, e por causa deles seria blasfemado o caminho da verdade (razão pela qual temos sido motivo de chacota e piadinhas), e que, “movidos pela ganância, e com palavras fingidas” os tais fariam de nós negócio (2 Pedro 2:1-3). Nada mais atual, não?

E agora veem com esta estória de Cristofobia? Hipócritas! Negociam o tempo inteiro em nome da fé, exploram o sofrimento alheio, boicotam qualquer avanço social, destilam ódio e preconceito em seus discursos, sempre ávidos pelo poder temporal, e agora posam de coitados, perseguidos, injustiçados?

Se verdadeiramente sofressem por amor a Cristo e ao Evangelho, se sentiriam tão contentes quanto os primeiros cristãos, pois se lembrariam das célebres palavras do Mestre: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Regozijai-vos e alegrai-vos, porque grande é o vosso galardão nos céus, pois assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós” (Mateus 5:10-12).

Repare nisso: o sofrimento advindo da perseguição só deveria ser motivo de alegria quando se desse “por causa da justiça” e “por minha causa” (Jesus). Portanto, qualquer um que seja perseguido por defender o que é justo está incluído aí. Isso inclui até os segmentos aos quais muitos cristãos se opõem, entre os quais, homossexuais, transexuais, feministas, como também negros, índios e outras minorias.

Os seguidores de Jesus deveriam se solidarizar com qualquer grupo que sofra perseguições “por causa da justiça”. Em vez de sair por aí em defesa própria, propondo um dia de combate à Cristofobia, um discípulo genuíno do nazareno deveria engajar-se na luta contra todo tipo de discriminação, reforçando o coro dos que clamam por justiça.

Em vez de propor uma reação conjunta contra a perseguição deflagrada durante os primórdios do cristianismo, o mesmo apóstolo que denuncia os falsos mestres que negociavam em nome da fé, preferiu consolar os cristãos perseguidos:

“Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo (…) Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem.” 1 Pedro 4:12-16

De acordo com a passagem acima, não há nada de extraordinário em sofrer por sua fé. Não se trata de diminuir sua importância, mas de igualá-lo a qualquer outro sofrimento humano. Pouco depois, na mesma epístola, o apóstolo diz: “sabendo que os mesmos sofrimentos estão se cumprindo nos vossos irmãos que estão no mundo” (1 Pedro 5:9).

Qualquer sofrimento humano é computado como sendo impingido ao próprio Cristo. Por isso, Pedro fala sobre ser “co-participantes dos sofrimentos de Cristo”. Não é em vão que Jesus disse que os critérios pelos quais seremos julgados por Deus é a maneira como lidamos com o sofrimento do nosso próximo. Os que receberem por herança o reino preparado antes da fundação do mundo ouvirão: “Pois tive fome, e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era forasteiro e me recolhestes; estava nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; preso e viestes me ver.” Quando perguntarem quando teriam feito tais coisas, Cristo lhes responderá: “Quando o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mateus 25:34-40).

Portanto, posicionar-se pelos direitos humanos e trabalhar para atenuar o sofrimento de quem quer que seja é estender as mãos ao próprio Deus. Opor-se a isso, sem sombra de dúvida, é opor-se à agenda divina.

Se sofrer pelo o que é justo deve ser motivo de celebração, sofrer por causa de uma postura antiética e desumana deveria ser motivo de vergonha. Daí, a admoestação apostólica: “Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de outrem.” Pode até ser que não haja entre os que se professam cristãos quem seja assassino, ladrão ou malfeitor, mas certamente o que mais há é quem se intrometa na vida alheia, impondo sua moral, seus costumes e valores, bem como sua agenda política.

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