A garota que não guardou os beijos para mim

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E então reencontro, por acaso, uma canção que me encantou e me atormentou durante anos. Ouvi-a quando estive pela primeira vez na Inglaterra, aos 19 anos. Eu era funcionário da Varig, do setor de reservas. Naqueles dias, você podia comprar uma passagem para qualquer lugar para que voasse a Varig por 10% do preço. A única condição é que você não podia reservar assento. Tinha que haver poltronas disponíveis. A maior parte de nós evitava viajar em períodos de alta procura. Fui para Londres em abril.

Deixei em São Paulo a menina de olhos verdes e vestidinho azul e amarelo.Em Londres, tocava uma música que imediatamente me remeteu a ela. Save all your kisses for me. Era exatamente o que eu queria. Que ela guardasse todos os beijos para mim.

Não aconteceu. Outros lábios receberam os beijos da menina de olhos verdes e vestidinho azul e amarelo, e provavelmente bem mais que isso. Meu primeiro amor se perdeu na distância atlântica e, com ele, chegou ao fim minha era da inocência. Das demais namoradas quis, nem sempre com sucesso, que guardassem mais que simplesmente os beijos para mim.

Poupo o leitor da descrição da dor ridícula que senti. Digo apenas que chorei, e comigo minha mãe. Hemingway escreveu, em Por Quem os Sinos Dobram, que existem três vezes em que a terra treme para alguém por causa do amor. Aquela foi uma delas. Não sei avaliar se em outras ocasiões sofri mais. Mas é fato que jamais voltei a chorar numa ruptura.

A música não fez muito sucesso no Brasil. Num determinado momento, quis ouvi-la, mas não sabia o nome exato, e nem quem cantava. Não sabia nada, em suma. Mas era uma melodia que eu não esqueceria nem que vivesse mil anos, bem como o refrão e, mais que tudo, a garota.

E eis que a música explode em meus ouvidos. A BBC estava fazendo uma série de programas que celebram um de seus grandes triunfos na televisão nos anos 60 e 70: o Top of the Pops. Nele eram apresentadas, ao vivo, as canções que dominaram as listas de vendas.

Sabia enfim quem cantava aquela música. Um conjunto vocal chamado Brotherhood of Man. Dois homens e duas mulheres que não poderiam ser mais cafonas, vejo agora. A dança dos quatro é tão feia que é estranhamente bela, como você pode verificar aqui.

Save all your kisses for me: ouço este refrão, uma, duas, várias vezes. Obsessivamente.

A melodia já não me perturba, não me faz suspirar. Mas ainda me faz parar de fazer tudo que esteja fazendo para ouvi-la compenetradamente. E ainda traz para minha memória e meu afeto aquela menina de olhos verdes vestidinho azul e amarelo, tão linda, mas tão linda que parecia ter sido esculpida por mãos divinamente hábeis, e não simplesmente gerada pelos pais — aquela garota que não guardou os beijos para mim.

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