Se a lei restabelecesse trabalho escravo e açoite, muitos brasileiros apoiariam, diz o jurista Lenio Streck. Por Paulo Henrique Arantes

Pintura de Debret

“Temos um pesado passado como futuro.”

Essas foram as primeiras palavras do jurista Lenio Streck ao comentar para o DCM o açoitamento de um adolescente de 17 anos, negro e pobre, por seguranças de um supermercado na Zona Sul de São Paulo, cujo vídeo do episódio, ocorrido em agosto, viralizou na internet nesta semana. O garoto havia furtado uma barra de chocolate.

“O látego (chicote) parece ser o sonho de um passado servil. O que podemos esperar de um país em que ainda possuímos elevadores sociais e de serviço?”, questiona Streck, citando o acerto do sociólogo Jessé Souza em seu livro “A elite do atraso” quando aponta os quatro séculos de escravidão como definidores do atual perfil nacional.

Para Lenio Streck, se uma nova lei no país restabelecesse o trabalho escravo e o açoite, “com certeza muita gente apoiaria, inclusive na área jurídica”.

“O mundo se surpreenderia com pareceres de juristas sustentando a legitimidade da lei. Torturar, açoitar, eliminar, fazer milícias… toda nossa história pode ser contada em um instante, em uma cena como essa”, desabafou Streck.

A manifestação do jurista, na verdade uma mini-análise histórica, aconteceu no mesmo dia em que o presidente da República, Jair Bolsonaro, exaltou os feitos do maior patrocinador de torturas de que se tem notícia, o falecido ditador chileno Augusto Pinochet, em ataque a ex-presidente do Chile Michele Bachelet, hoje alta comissária da ONU para Direitos Humanos, cujo pai, combatente contra o governo Pinochet, morreu sob tortura.

No mês passado, a personalidade enaltecida por Bolsonaro foi um torturador de perfil “mãos-à-obra”, Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do sinistro DOI-Codi da Rua Tutoia.Os seguranças do supermercado em questão têm em quem se inspirar.

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