Se discursar na ONU, Bolsonaro só vai piorar a imagem do país, diz pesquisadora. Por Eduardo Maretti

Saturnina Chue, do povo Chiquitano, participa da 42ª Sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU em Genebra, Suíça. Foto: GUILHERME CAVALLI/CIMI

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual (RBA)

POR EDUARDO MARETTI

Ainda não se sabe com certeza se o presidente Jair Bolsonaro estará em Nova York para fazer o discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 24 de setembro. Discute-se a possibilidade de sua ausência no evento por questões de saúde. Mas também, no Itamaraty, o debate sobre a dúvida é outro: se discursar, ele corre risco de sofrer boicote de outros líderes mundiais e ser objeto de protestos.

“Para o  discurso de Bolsonaro na ONU, há duas opções: ou ele sofre um boicote, os lideres levantam, esvaziam a assembleia como forma de protesto dos próprios líderes, ou, se falar, o que disser só vai piorar ainda mais a imagem do país”, acredita Miriam Gomes Saraiva, pesquisadora do departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Para ela, o presidente que vier depois de Bolsonaro, se quiser limpar a imagem internacional do país, “terá de convencer o mundo de que tudo o que está acontecendo em nossa política externa foi um ponto fora da curva, que não era a normalidade brasileira”.

O clima para Bolsonaro na Organização das Nações Unidas (ONU) piora a cada dia. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, a entidade vetou o discurso do Brasil na Cúpula para Ação Climática, na próxima segunda-feira (23), em Nova York, porque “o Brasil não apresentou nenhum plano para aumentar o compromisso com o clima”, segundo justificativa do enviado especial da secretaria-geral da ONU, Luis Alfonso, à Folha. Estados Unidos, Arábia Saudita, Japão, Austrália e Coreia do Sul também foram vetados.

Na 42ª Sessão da Comissão de Direitos Humanos da Nações Unidas, em Genebra, Suíça, nesta quarta-feira, representantes de povos indígenas brasileiros e estrangeiros se manifestaram oficialmente contra os ataques de Bolsonaro. Saturnina Urupe Chue, indígena do povo brasileiro Chiquitano, declarou na comissão que “hoje somos ameaçados abertamente pelo presidente da República”.

“Meu povo tem sido atacado e violentado gravemente. O governo do Brasil insiste em não reconhecer nossos Direitos Constitucionais sobre nossas terras. Muitos Chiquitanos já estão deslocados do território. São obrigados a viver fora, nas cidades não indígenas e abaixo de extrema vulnerabilidade”, acrescentou Saturnina.

“Quando estive em visita ao povo Guarani no Brasil, fomos vigiados por pistoleiros”, lembrou Victoria Tauli-Corpuz, relatora da ONU para temas indígenas, cujo trabalho o governo brasileiro tenta esvaziar, segundo o jornalista Jamil Chade em seu blog. Grupos indígenas estrangeiros denunciam Bolsonaro por suas ações contra os povos originários e de fazer esforços para evitar a aprovação de uma resolução da ONU sobre seus direitos.

Para o secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cleber Buzatto, a tomada de posição dos indígenas de outros países é um “indicativo forte de que povos originários de outros países estão atentos ao que acontece no Brasil de forma solidária, mas também estão preocupados com as consequências das ações do Brasil relativamente aos seus direitos nos países de origem”.

Eles têm consciência de que, se puder, Bolsonaro prejudicaria os povos indígenas do mundo todo. “Estão atentos e a denúncia ajuda na repercussão internacional das ações do governo contra os povos indígenas no Brasil”, diz Buzatto.

Miriam Gomes Saraiva lembra que não é a primeira vez que o Brasil é denunciado por diferentes instâncias por questões indígenas. Em 2018, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou o país por violação aos direitos dos índios Xucuru à propriedade coletiva e à garantia e proteção judicial.

“Fala muito”

“O governo de Michel Temer fazia algumas ações contrárias à ONU, mas isso não era divulgado. O Bolsonaro fala muito e divulga o que fala. Em política externa, o que se fala tem um peso muito grande”, afirma a professora da Uerj.

Um exemplo foi a “promessa” de Bolsonaro de mudar a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. “Imediatamente foi cancelada uma viagem do (então chanceler) Aloysio Nunes ao Egito, pelo próprio país árabe. Bolsonaro nem era presidente ainda, mas o simples fato de dizer que ia fazer isso no futuro, o que aliás não fez, já foi suficiente para provocar uma reação”, lembra Miriam.

“As políticas reais, como no caso dos indígenas, se somam às falas e provocações desnecessárias, assim como foi ao defender a ditadura do Chile e do Paraguai.”

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