Se nem Glória Maria, em seu “lugar de fala”, pode dizer o que pensa, que será de nós, mortais? Por Nathalí Macedo

A postagem de Glória Maria

Eis um fato tão adstringente quanto uma segunda-feira: os movimentos de esquerda têm se preocupado pouco (ou nada) com as questões individuais.

O coletivismo frenético é compreensível diante de uma polarização tão brutal: a necessidade do sentimento de pertencimento de uma geração perdida em si mesma é absolutamente justificável, mas perigosa.

Exemplos: Ney Matogrosso sendo rotulado pelo movimento LGBT como um “artista cristalizado” por não seguir a cartilha; Chico sendo rechaçado pelos feminismos por compor uma música sobre adultério; Glória Maria sendo virtualmente linchada por criticar publicamente os rumos do movimento negro e das lutas raciais no Brasil.

No Instagram, às vésperas do dia da consciência negra, ela compartilhou uma frase de Morgan Freeman, também negro, que denota certa indiferença à data e ao seu significado: “O dia em que pararmos de nos preocupar com a consciência negra, amarela ou branca, o racismo desaparecerá.”

Considerando que essa história de “consciência humana” é basicamente inaceitável para o movimento negro, é claro que o post foi duramente criticado. Muitos se atreveram a pedir que ela excluísse a imagem.

“Algum de vocês conhece a minha história e a dele? Se contentam em tirar conclusões e emitir opiniões equivocadas em redes sociais! Nós estudamos, lutamos, resistimos e combatemos todo tipo de discriminação! O preconceito racial é marca nas nossas vidas! Mas não tenho que mudar minhas ideias por imposição de quem quer que seja! Apagar este post???? Nunca!!!!”, respondeu, e não apagou.

Se nem Glória Maria, uma jornalista respeitada e em seu “lugar de fala”, pode dizer o que pensa, que será de nós, mortais?

Os dogmas dos movimentos de esquerda – em especial dos feminismos, que são aqueles que me atingem diretamente – têm beirado o fundamentalismo.

A violência com que a individualidade das pessoas é podada não impulsiona nenhum movimento para frente e, de bônus, impulsiona as pessoas para trás, ao passo que busca apaga-las.

Glória Maria é uma negra que não comemora o dia da Consciência Negra. Ney Matogrosso não levanta a bandeira LGBT porque, disse ele, sua vida não se resume à sua sexualidade; Chico compõe músicas sobre pais que abandonam filhos por paixões efêmera; Karnal e Luiz Felipe Pondé jantam juntos quando sentem vontade.

Todos são duramente criticados – por vezes, silenciados – por dizerem o que pensam.

Eu, por minha vez, sou uma feminista que gosta de se maquiar. Que faz ensaio sensual. Que quer casar e ter uma filha chamada Helena. Que gosta de homens – e também de mulheres. Que não acredita que sempre que um homem fala a uma mulher sobre algo que ela não conhece, ele pratica mansplaning. Que acredita que mulheres também podem serem abusivas.

O preço é alto, como se é de imaginar: já fui rechaçada por radfeministas por me relacionar com homens e apoiar o transfeminismo; já fui repreendida por amigas feministas por “performar feminilidade”; já recebi críticas por dizer que não via machismo numa situação na qual eu realmente não via machismo (nota: isso não me torna menos feminista).

Sou frequentemente podada – e, creiam, não estou sozinha –  nos meus gostos pessoais e nas minhas escolhas individuais por um movimento que se propõe a acolher mulheres, mas tem caçado mulheres.

O que somos intimamente é a nossa maior resistência. Render-se à cartilha do que quer que seja não combina com um pensamento progressista, e apagar o individualismo é minar todas as possibilidades de um movimento coletivo minimamente eficiente.

Espero que, como Ney, Glória, Chico e tantos outros, cada vez mais artistas – e pessoas – insistam em serem quem são em uma geração que molda seres humanos em nome da liberdade.

“Feminista branca falando bosta”, alguém dirá.

Apagar?

Nunca.

 

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