Seca histórica coloca abastecimento de São Paulo em risco de novo

Atualizado em 16 de janeiro de 2026 às 7:02
Áreas secas na represa Jaguari-Jacareí, que compõem o Cantareira, em Joanópolis (SP). Foto: Danilo Verpa

A seca histórica que atinge o Sudeste derrubou o volume do Sistema Cantareira para cerca de 19% e colocou o abastecimento de São Paulo e da região metropolitana em alerta máximo para 2026, conforme análises feitas a pedido do G1.

Segundo pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), mesmo no cenário mais favorável de chuva, a capital deve enfrentar restrições no fornecimento de água ao longo de todo o ano. No pior cenário, o risco é de repetição da crise hídrica de 2014, com redução drástica de pressão e cortes prolongados.

O Sistema Cantareira — responsável por abastecer 9 milhões de pessoas — registrou em 2025 pouco mais de 900 milímetros de chuva, o menor volume da década. Com o reservatório abaixo de 30%, entrou em vigor o protocolo que obriga a retirada reduzida de água: de 33 m³/s em situação normal para 23 m³/s.

Isso significa 864 milhões de litros a menos por dia distribuídos à população. A Agência Nacional de Águas (ANA) classifica a situação como urgente e já prevê que “vamos trabalhar o ano inteiro sob restrição”, segundo o superintendente Alan Vaz.

Cenários projetados e alerta de especialistas

Os estudos do Cemaden indicam que nenhum cenário aponta recuperação significativa do Cantareira em 2026. Para a especialista Adriana Cuartas, “a situação é muito crítica” e tende a piorar na estação seca. A região já opera com pressão reduzida desde 2025, e áreas altas e periféricas começam a registrar falta d’água.

A transposição do Paraíba do Sul segue ativa, mas a própria bacia enfrenta um déficit severo de chuvas. Especialistas como Benedito Braga e Rodrigo Manzione defendem medidas duras: restrição contínua, redução de pressão noturna e até racionamento, considerado “necessário já neste verão”.

Cantareira seco na crise hídrica de 2014/2015 (Divulgação/Sabesp)
Cantareira seco na crise hídrica de 2014/2015. Foto: Divulgação/Sabesp

Por que a seca é tão intensa?

Segundo o Cemaden e a ANA, o Sudeste registrou entre outubro e dezembro de 2025 um dos maiores déficits de chuva da série recente, com variação negativa de 113,7 mm. Quase 90% dos municípios paulistas passaram mais de 60 dias sem chuva no período em que os reservatórios deveriam se recuperar.

A bacia do Cantareira sofre a pior estiagem em 10 anos, com acúmulo anual de apenas 943 mm — cerca de 30% abaixo do esperado. Especialistas apontam o impacto de um oceano mais quente, que aumenta bloqueios atmosféricos e impede a chegada de frentes úmidas.

Riscos para 2026 e necessidade de mudanças

Os especialistas ouvidos concordam que São Paulo deve atravessar 2026 inteiro sob restrição. A projeção inclui menor oferta diária, queda de pressão, interrupções noturnas e risco de menos da metade do volume normal chegar às torneiras até setembro.

Há também a possibilidade de retomada de multas por consumo excessivo, como em 2014. Outro desafio é o desperdício: até 30% da água se perde na rede antes de chegar às casas.

A Sabesp, por sua vez, elevou a retirada média para 71,9 m³/s durante ondas de calor, o maior volume já registrado. A empresa alega que foi uma questão de aumento da demanda.