Sem Bebianno, Bolsonaro não seria presidente da República. Por Kennedy Alencar

Bolsonaro cumprimenta Bebianno durante cerimônia de nomeação dos ministros – 1/1/2019 (Marcos Corrêa/PR)

PUBLICADO NO BLOG DE KENNEDY ALENCAR

POR KENNEDY ALENCAR

Sem Gustavo Bebianno, Jair Bolsonaro não seria presidente da República. Bebianno morreu na madrugada de hoje após sofrer um infarto no Rio de Janeiro.

Advogado, Bebianno tentou aproximação com Bolsonaro em 2014 que acabou não indo adiante, mas deixou frutos para uma parceria a partir de 2017. Essa sociedade política resultou numa estrutura profissional de campanha para o então deputado federal.

Advogado, Bebianno entendeu que, no período de 2013 a 2018, surgira uma oportunidade para um político conservador como Bolsonaro. As manifestações de 2013, a disputada eleição entre a petista Dilma Rousseff e o tucano Aécio Neves em 2014, o impacto da Lava Jato na opinião e o impeachment de 2016 criaram condições favoráveis à extrema-direita no Brasil.

Bebianno compreendeu bem como embalar Bolsonaro, que é uma pessoa com limitações intelectuais e políticas. Não só Bolsonaro tem essas limitações, mas também os seus filhos políticos.

Grande articulador da campanha de Bolsonaro, ele trouxe alguma sofisticação política ao fenômeno Bolsonaro. Atraiu o apoio de Paulo Marinho, empresário do Rio de Janeiro que apoiou Fernando Collor de Mello e cedeu estrutura para o marketing político do bolsonarismo em 2018.

Nesse contexto, pode ser dito que Bolsonaro deve a eleição dele a uma figura como Bebianno. O internauta Waltuir Andrade fez uma observação sobre o comentário na rádio CBN a respeito da morte de Bebianno: “Acredito que, sem o Moro, ele não seria com certeza [presidente da República]”. Andrade está certo. Moro é outra pessoa a quem Bolsonaro deve a eleição porque condenou Lula a tempo de tirar o petista da cédula eleitoral de 2018.

Voltando a Bebianno, ele entrou em rota de colisão com Bolsonaro e os filhos políticos no curto período em que foi ministro da Secretaria Geral _ficou no cargo menos de dois meses.

Bolsonaro é o que sempre foi. Alguns políticos e jornalistas imaginavam que, ao virar presidente da República, a responsabilidade e a liturgia do cargo o mudariam. Mas isso não aconteceu porque Bolsonaro sempre foi um deputado limitado, algo folclórico no Congresso, medíocre do ponto de vista da produção legislativa, um político que fez carreira atacando minorias e defendendo a ditadura militar de 1964 e seus torturadores.

Entre 2013 e 2018, apareceu uma janela de oportunidade que permitiu a Bebianno ser o grande arquiteto da eleição de um político de extrema-direita, criando condições para que conselhos de Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump, fossem aplicados com eficiência, estimulando ódio e intolerância no debate público. Bebianno assumiu a presidência do PSL e coordenou a campanha eleitoral do atual presidente dentro desses marcos estratégicos.

Logo no começo do governo, Bebianno rompeu com Bolsonaro. Ele criticou o presidente, mas nunca revelou os grandes podres da campanha bolsonarista, como a máquina de fake news com disparos pelos WhatsApp. Ele esteve envolvido no centro de uma campanha cujos segredos o assombravam e ainda podem assombrar o presidente e seus filhos políticos.

De certa forma, revelar esses segredos significaria atirar no próprio pé. Há rumores de que Bebianno teria deixado gravações e cartas com essas informações. Não se sabe se existem de fato e, se existirem, se virão a público.

De uma ala mais moderada, Bebianno pensava num governo que tivesse base parlamentar e melhor relação com a imprensa. Perdeu a disputa interna com os filhos do presidente e morreu quando ensaiava uma candidatura à Prefeitura do Rio de Janeiro pelo PSDB. Bebianno virou tucano a convite do governador de São Paulo, João Doria, ex-aliado e hoje adversário político de Bolsonaro.

Laranjal

Em relação ao escândalo dos laranjas, Bebianno jogava a responsabilidade para seções estaduais do PSL. Em entrevista à CBN, ele argumentou que os valores eram pequenos e serviram a candidatos a deputados federais que criaram postulantes laranjas a fim de arrecadar mais recursos.

Esse caso continua sendo menosprezado pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, que não demonstra interesse em investigá-lo, apesar de ser um paladino do combate à corrupção e símbolo da Lava Jato.

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