Sem dívidas, com um elenco jovem e sem estrelas: o Bayern é um modelo para os times brasileiros?

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É difícil construir uma equipe de futebol vencedora. É ainda mais difícil ganhar de forma consistente por um longo período. Poucos clubes conseguiram tornar-se dinastias – mas isso é precisamente o que o Bayern de Munique é hoje. O time conseguiu vencer a Liga dos Campeões, a Bundesliga (título nacional) e a DFB Pokal na mesma temporada, um feito só alcançado por outras seis equipes ao longo dos últimos cinqüenta anos.

“Queremos ser o melhor time do mundo”, disse o presidente do Bayern, Karl-Heinz Rummenigge. Hoje, parece haver poucas dúvidas de que o Bayern está prestes a se tornar a próxima grande dinastia do futebol mundial.

Três fatores importantes estão levando a maioria dos observadores à mesma conclusão:

1 . Juventude. A idade média dos onze jogadores em campo é 25. Ribéry é o único com mais de 30.

2 . O Bayern é um colosso financeiro. A Allianz Arena será completamente paga até o final deste ano e o Bayern tem mais de € 100 milhões em patrocínios anuais, além de receitas anuais superiores a € 70 milhões, originárias da TV alemã e de ganhos na Liga dos Campeões.

3 . Pep Guardiola. O melhor treinador, a melhor mente do futebol, que substituiu o lendário Jupp Heynckes.

E assim é que o FC Bayern permanece de pé com a intenção de dominar o futebol alemão e o europeu pelo resto da década. Nos últimos anos, apenas um punhado de times da Europa mantiveram registros consistentes de domínio — Manchester United, Chelsea, Barcelona, Real Madrid e Inter de Milão.

Mas enquanto a maioria destes clubes se endividou pesadamente por essa glória, o Bayern manteve a responsabilidade fiscal. De acordo com seu estatuto, ele não pode manter dívidas.

Essa política forçou um desenvolvimento cuidadoso de talentos. Também houve a contratação dos melhores jogadores alemães na Bundesliga de equipes que não têm o mesmo poderio fianceiro. Exemplos recentes são jogadores como Mario Gomez, Manfred Neuer e Mario Götze, atraídos de equipas alemãs rivais.

O Bayern tem evitado a estratégia dos “galácticos” que o Real Madrid adotou quando pagou taxas de transferência milionárias por David Beckham, Luis Figo e Zinedine Zidane.

O Chelsea, graças aos bilhões do oligarca russo Roman Abramovich, comprou o seu caminho para as fileiras dos grandes times, mas era geralmente ofuscado na Inglaterra pelo rival Man U.

O Bayern tem seguido uma abordagem cuidadosa e tipicamente alemã para a criação de sua lenda. Empregou uma abordagem modesta e cautelosa para o mercado de transferências – o ala francês Franck Ribéry assinou por “modestos” € 25 milhões em 2007. Pagou o mesmo montante em 2009 para adquirir o holandês Arjen Robben.

Estas contratações fortalecem uma equipe que inclui um núcleo sólido de alemães – Manuel Neuer no gol, Philip Lahm e Jerome Boateng na defesa. O processo de montagem deste colosso bávaro foi liderado pelo presidente do clube e gerente geral de longa data Uli Hoeness, que agora enfrenta acusações nos tribunais de Munique por ter deixado de pagar impostos sobre um “empréstimo” misterioso de um ex-presidente da Adidas, que, em seguida, obteve um lucrativo acordo de patrocínio com o FC Bayern.

Declara Hoeness, desafiadoramente: “O Bayern está bem configurado, tanto esportiva quanto economicamente, para o futuro… Nós somos fortes em todas as áreas e vamos continuar melhorando em todos os aspectos do jogo”.

Jupp Heynckes foi fundamental. Heynckes conseguiu acalmar egos da equipe que quase destruíram tudo. Grande parte da tensão vinha da rivalidade e da inimizade entre Franck Ribery e Arjen Robben.

Em abril de 2012, Ribéry deu a Robben um olho roxo durante uma partida da Liga dos Campeões contra o Real Madrid. Foi um soco ouvido em toda a Alemanha e o cume de anos de rixas amargas.

Atualmente, Rummenigge diz que nunca experimentou um tal grau de harmonia numa equipe em seus 39 anos de futebol profissional. Enquanto Hoeness pode ter sido o arquiteto do sucesso do Bayern de Munique, o engenheiro foi Heynckes, que, apesar de ganhar a tríplice coroa, foi  trocado por Pep Guardiola. Esse é o tipo de tática cruel que Honess ficou famoso por empregar e mostra como a mentalidade alemã não tem espaço para o sentimento. É tudo sobre a excelência, sobre ganhar a qualquer custo e sobre se superar.

Disse Heynckes: “Eu disse aos jogadores que, se não nos déssemos conta de que é necessário trabalhar em equipe, não teríamos nada. Atletas encrenqueiros foram capazes de superar seu egoísmo, e mesmo Arjen Robben e Franck Ribéry mudaram de atitude.  A chave foi a harmonia da equipe e o compromisso com um objetivo comum”.

Heynckes também foi fundamental para convencer o Bayern a assinar com Javi Martinez, apesar dos protestos de Hoeness e Rummenigge de que ele era muito caro – outra indicação de relativa frugalidade para um superclube.

“Ele custou € 40 milhões e eu admito que tinha sérios problemas com o pagamento desta quantia. Ele não jogou tão bem no começo, também. E eu tive que dizer a meus chefes: ‘Esperem, as coisas vão melhorar.’”

Ao longo de sua história, o FC Bayern ganhou cinco Copas da Europa, mas teve apenas uma época de sucesso sustentável entre 1974 e 1976 e outra nos anos 80.

A base foi montada. O desafio, agora, para todos os envolvidos é o de assegurar que o FC Hollywood (como o time é chamado na Alemanha) permaneça no auge.

Pep Guardiola tem uma responsabilidade gigantesca. O mestre espanhol instilou nos alemães o gosto pelo passe preciso que o Barcelona cultivou. Foi como se o futebol alemão tivesse adquirido um novo nível de sutileza.

Uma coisa rara de beleza. Mesmo que Uli Hoeness tenha de ver seu clube ganhar um segundo título consecutivo da Liga dos Campeões numa cela de Munique no próximo verão, ele vai certamente verter lágrimas de seus frios e duros olhos alemães.

 

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