Sem Michelle e Tarcísio, o extremista moderado sobe no caminhão de Malafaia. Por Moisés Mendes

Atualizado em 2 de março de 2026 às 7:37
Flávio Bolsonaro ao lado de Nikolas Ferreira durante ato flopado na Paulista. Foto: Reprodução

Flávio, o empreendedor dos Bolsonaros, o racional, o amigo da Faria Lima, foi à aglomeração da Paulista contra tudo isso que está aí e que mais uma vez foi marcada por ataques a Alexandre de Moraes e ao Supremo.

Por que o filho ungido foi a um evento de radicais, se vem tentando se apresentar como o mais novo moderado, para conquistar a velha direita?

Flávio foi porque está percebendo que não corre mais riscos, se fortalecer a fidelização da base extremista. A velha direita, incluindo líderes e eleitores, não está preocupada com extremismos.

Flávio apareceu de óculos escuros, o que pode indicar algo importante no seu novo estilo. E ouviu Nikolas Ferreira dizer aos gritos em cima do caminhão de Malafaia:

“O destino do Alexandre de Moraes não é impeachment, não. O
destino do Alexandre de Moraes é cadeia”.

O filho, mais contido, apenas ameaçou ministros do Supremo com impeachment. O fascismo e a velha direita contam muito com essa moderação:

“Quero deixar uma coisa muito clara: todos nós somos favoráveis a impeachment de qualquer ministro do Supremo que descumpra a lei. Isso só não acontece hoje porque ainda não temos maioria no Senado Federal”.

Defender impeachment de ministro é quase nada perto do que defendem os radicais, como o próprio Malafaia, que disse o seguinte, depois de chamar Alexandre de Moraes de novo de ditador:

“Ele (Alexandre de Moraes) foi comprado. O seu poder foi comprado no contrato da mulher dele. Ela (a advogada Viviane Barci de Moraes) tem que ser convocada. O sigilo dele tem que ser quebrado”.

Apresentaram-se também Caiado e Zema, que se esforçam para que sejam aceitos como bolsonaristas. Mas são fracos, tão fracos que, mesmo sendo, em tese, concorrentes de Flávio à presidência, estavam lá ao lado dele, como ajudadores.

A aglomeração teve forte apelo religioso e um exemplo foi essa manifestação cristã do deputado Mário Frias:

“Muita gente diz que a gente é extremo, que a gente é radical. E a gente é radical, sim, a gente é radicalmente cristão. A gente é radicalmente temente a Deus. A gente é radicalmente patriota e radicalmente Bolsonaro”.

Deus não tem ajudado o fascismo, mas desta vez pelo menos não mandou raios sobre as cabeças de Nikolas e dos que estavam por perto.

A aglomeração teve, no pico de público, 20,4 mil pessoas, segundo o Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e a ONG More in Common.

No Rio, em Copacabana, apareceram 4,7 mil pessoas. Parece pouco para São Paulo e muito pouco para o Rio, e sabe-se que em outras capitais também foram aglomerações modestas.

Mas nada disso tem hoje o significado que vinha tendo até o ano passado. Aglomerações analógicas, à direita e à esquerda, perderam o sentido.

É preciso registrar que Michelle e Tarcísio não apareceram. Michelle fez uma cirurgia logo agora. E Tarcísio arrumou uma viagem, também logo agora.

Desapareceram no momento em que Flávio é apresentado à sociedade, em evento público, como ungido pelo pai. Fugiram de Malafaia, de Nikolas e de Flávio, mesmo que todos também sejam radicalmente cristãos.

LIBERAIS

Estou confuso. Ontem a repórter Sandra Coutinho disse na Globo, com certa candura, que o “Irã liberal” de Reza Pahlavi deu lugar à teocracia dos aiatolás no Irã.

Chamar Reza Pahlavi de liberal é quase como dizer que a família Bolsonaro é uma trincheira da democracia.

Mas aí leio agora na Folha o seguinte: “Há diversos argumentos para justificar a contenção da teocracia instaurada em 1979 pelos fanáticos xiitas de Ruhollah Khomeini que derrubaram a abusiva monarquia do xá Reza Pahlavi”.

Abusiva monarquia já melhora um pouco. Mas nada é mais escrachado do que o editorial do Estadão, que ignora a matança de crianças, desde que Trump destrua o poder dos aiatolás.

As ideias, as ações e os crimes do fascismo brasileiro não existiriam sem a exuberância liberal da imprensa das corporações.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/