Sem provas, procurador dos EUA tenta associar filho de Maduro ao narcotráfico

Atualizado em 7 de janeiro de 2026 às 8:38
Nicolasito, filho de Nicolás Maduro. Foto: reprodução

A nova denúncia apresentada pelo procurador estadunidense Jay Clayton ao Tribunal do Distrito Sul de Nova York amplia o alcance das acusações contra o círculo próximo de Nicolás Maduro. Além de imputar ao presidente da Venezuela crimes ligados ao narcotráfico, o documento também menciona o filho dele, Nicolás Ernesto Maduro Guerra, conhecido como Nicolasito ou El Príncipe.

Apesar das afirmações contundentes, a peça judicial não apresenta provas materiais que sustentem as acusações contra o deputado venezuelano, o que tem levantado questionamentos entre especialistas e analistas internacionais.

Com 35 anos, economista de formação e recém-empossado para seu segundo mandato na Assembleia Nacional da Venezuela, Nicolasito representa o estado de La Guaira. Sua nomeação segue um processo eleitoral marcado por forte contestação.

As eleições legislativas de 2025 foram boicotadas por grande parte da oposição, que não reconheceu o pleito como legítimo após alegações de fraude nas eleições presidenciais de 2024, que garantiram a permanência de Maduro no poder. Nesse cenário, a ascensão política do filho do ex-presidente é vista como continuidade da influência da família Maduro no aparato estatal.

Segundo Jay Clayton, Nicolasito seria “um político corrupto” que “se associou a narcotraficantes e grupos narcoterroristas” para facilitar a entrada de cocaína produzida na Colômbia nos Estados Unidos.

A acusação descreve um esquema transnacional envolvendo diversos atores: as guerrilhas colombianas Farc e ELN no controle da produção de cocaína nas regiões montanhosas; os cartéis mexicanos Sinaloa e Los Zetas no transporte pela América Central e na travessia da droga para território estadunidense; e autoridades venezuelanas que fariam a “ponte” entre os dois blocos, garantindo proteção aos carregamentos enquanto estivessem na Venezuela, supostamente em parceria com a facção Tren de Aragua.

Nicolasito, Nicolás Maduro e Cília Flores. Foto: reprodução

O documento afirma ainda que Nicolasito ganhou poder político após a chegada do pai ao comando do país, em 2013. Segundo a denúncia, ele foi nomeado chefe do corpo de inspetores especiais da Presidência em um “cargo que foi criado” especificamente para ele. Essa posição teria ampliado sua influência e acesso a estruturas estatais, que, de acordo com a narrativa apresentada por Clayton, teriam sido instrumentalizadas para atividades ilícitas.

A denúncia cita o depoimento anônimo de um capitão da Guarda Nacional venezuelana para descrever supostas operações realizadas entre 2014 e 2015. Nesse período, Nicolasito teria viajado com frequência para a ilha de Margarita a bordo de um avião Falcon 900 da estatal PDVSA.

Segundo o militar, a aeronave era carregada com pacotes envoltos em fita adesiva, interpretados por ele como drogas. Em pelo menos uma dessas ocasiões, Nicolasito teria observado o carregamento e afirmado que “o avião poderia ir aonde quisesse, inclusive os Estados Unidos”.

Outro trecho sustenta que, em 2017, Nicolasito “trabalhou para enviar centenas de quilos de cocaína da Venezuela para Miami”.

Em seguida, o procurador relata supostas conversas do filho de Maduro com parceiros no tráfico sobre o envio de um carregamento de 500 quilos de cocaína de baixa qualidade para Nova York, utilizando contêineres que passariam por Miami antes de seguir para portos nova-iorquinos. Mais uma vez, nenhuma prova documental foi anexada para comprovar essas alegações.

Por fim, a denúncia afirma que, em 2020, Nicolasito teria participado de uma reunião em Medellín com representantes das Farc para planejar o envio de drogas e armas aos EUA ao longo dos anos seguintes, até 2026.

Também teria discutido remunerações em armas para a guerrilha. No entanto, assim como nos demais pontos, o documento não apresenta evidências que confirmem sua participação ou a veracidade das supostas negociações.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.