Sem questão social e soberania nacional, não há agenda comum anti-Bolsonaro, diz Dirceu

Foto: Sérgio Lima

Originalmente publicado no site do GRUPO PRERROGATIVAS

Por José Dirceu

O que divide as forças anti-Bolsonaro é o medo das mudanças sociais. A direita liberal critica a agenda antidemocrática e obscurantista de Bolsonaro, mas o tolera pela manutenção de seus privilégios, garantidos pela política econômica neoliberal de Paulo Guedes. Não há outra explicação para a anomia e indiferença de amplos setores sociais frente ao desastre que se avizinha na continuidade do atual governo –sem mencionar os riscos democráticos que corremos, cada dia mais evidentes.

O país caminha a trancos e barrancos para a sucessão de Bolsonaro. Acredito que já há uma maioria no eleitorado que o derrotará no 2º turno, se ele não for impedido legal e constitucionalmente antes. Entre muitos dos que o apoiaram, já não há mais esperança de que sejam alterados o rumo autoritário, obscurantista e fundamentalista, que é de sua natureza de extrema direita, e o modus operandi via milícias armadas, politização e aparelhamento das polícias, armamento de sua base de militantes, pregação do ódio e da violência, o desgoverno, a degradação da política e a impunidade de seus familiares e amigos. E tendem a se agravar, em decorrência da obsessão pela reeleição, com as pressões e disputas pelo controle do Judiciário e do Ministério Público. Sem falar da criminosa ação na pandemia, no meio ambiente, na educação e cultura, na ciência, na política externa e, agora, no Parlamento onde vale tudo para eleger seus apoiadores ainda que ele mesmo saiba, veio deste meio, que está comprando terreno na lua.

Um fantasma, no entanto, ronda o Brasil. O medo da reação de suas milícias e tropas cada vez mais politizadas, armadas para defender a nação e sua segurança interna, mas cúmplices de suas políticas criminosas, quando não agentes dessas políticas. Um temor que cresce com sua aparente maioria no Congresso, o silêncio do Judiciário e a ausência de grandes manifestações contra seu desgoverno, só agora retomadas.

Não mencionei propositalmente sua política econômica, pois este é um ponto a ser tratado separadamente. Ela é o elo de união de Bolsonaro com as elites empresariais e com o chamado mercado, os rentistas e o capital financeiro, os grandes grupos econômicos, cartéis e monopólios que influenciam e controlam a maioria no Parlamento. A política econômica neoliberal –de concentração da renda, Estado mínimo, teto de gastos, privatizações, etc.– tem, ainda, o apoio da grande mídia e do eleitorado liberal e conservador do país. Basta lembrar que 1% da população controla 28,5% da renda nacional, e os 10% mais ricos ficam com mais de 50%.

DIVISOR DE ÁGUAS

A questão de fundo que divide as forças anti-Bolsonaro não é o impeachment ou a derrota do atual presidente em 2022, mas a economia, a renda, a riqueza, o patrimônio e a propriedade acumulada nos últimos 70 anos. É o conflito distributivo e as reformas necessárias para o Brasil retomar seu desenvolvimento nacional, começando pela questão histórica e decisiva: a soberania nacional, a independência do país, a democracia e a justiça social. Com exceção da questão democrática, não há acordo entre as forças anti-Bolsonaro sobre a soberania nacional, ainda que sua nefasta e desastrada política externa seja condenada por todos. Também não há acordo sobre uma urgente Revolução Social, que distribua renda e riqueza, viabilize o crescimento com o fim da exclusão social e da desigualdade, uma das piores do mundo.

O que assistimos na eleição da mesa da Câmara dos Deputados no dia 1o foi o abandono da agenda democrática e de independência da Câmara pelas bancadas do PSDB e DEM. Divididas e com parte do PSDB e a maioria do DEM se bandeando para o candidato do Planalto, foram incapazes de vencer, mesmo com o apoio da oposição de esquerda. Mais grave: trocaram o apoio ao candidato governista por ministérios. A fragilidade política dos partidos de direita e centro-direita é tamanha que o MDB, partido do candidato derrotado, foi convidado a compor o ministério de Bolsonaro, sinalizando um possível apoio à reeleição do presidente, possível candidato dos partidos do centrão liderados pelo PP. O que aumenta a responsabilidade dos partidos de esquerda e centro-esquerda na busca da unidade para as eleições de 2022, começando pela mobilização popular e luta pelo impeachment, defesa da vacinação universal e pública, do auxílio emergencial e de um programa de investimentos para superar os riscos de recessão, fome, desemprego e descontrole da pandemia. A decisão monocrática de dissolver o bloco liderado por Baleia Rossi, uma violência regimental, diz tudo sobre a presidência que se inicia. Com força e rolo compressor, o compromisso democrático é pura retórica.

Pela sua dimensão geográfica, populacional, econômica, industrial e científica, o Brasil pode e deve ter um desenvolvimento soberano e independente, integrar a América do Sul e ocupar seu lugar no mundo como os governos de Lula provaram ser possível. Sem o Estado –como comprovam a pandemia e as crises do capitalismo–, não haverá saída para o Brasil. São os bancos públicos, as estatais estratégicas e as políticas sociais públicas que permitiram ao país ser a 6ª economia do mundo. Não há como crescer sem uma revolução educacional e científica e sem distribuição de renda. O governo, no entanto, retira recursos, créditos e subsídios da ciência e tecnologia, da educação, da saúde, do meio ambiente, da cultura e até da segurança pública. E insiste no caminho de limitar o Brasil a exportador de alimentos, minérios e energia e abrir nossos mercados de serviços e compras governamentais.

O que divide as forças anti-Bolsonaro é o medo das mudanças sociais. A direita liberal critica a agenda antidemocrática e obscurantista de Bolsonaro, mas o tolera pela manutenção de seus privilégios, ou seja, riqueza e renda, garantidos pela política econômica neoliberal de Paulo Guedes. Não há outra explicação para a anomia e indiferença de amplos setores sociais frente ao desastre que se avizinha na continuidade do atual governo –sem mencionar os riscos democráticos que corremos, cada dia mais evidentes. Não é a 1ª vez e nem será a última que nossas elites se comportam assim, defendendo uma transição por cima, sem povo. Temem que a organização popular pelo impeachment dê cacife às esquerdas para chegarem ao poder em 2022 e fazerem as reformas necessárias –a política, a tributária e a do sistema financeiro– para superar de vez a desigualdade social e os verdadeiros gargalhos que impedem o crescimento e o desenvolvimento nacional.

SÓ CONTENÇÃO DE DANOS

No fundo, enquanto as elites liberais não chegam a um acordo sobre como e quando substituir Bolsonaro, limitam-se a conter danos e impedir sua marcha para um governo autoritário. Mas seguem firmes na defesa de seus  interesses econômicos e poder político, caso dos grupos empresariais de mídia, Globo à frente. Todos querem mudar sem mudar, a velha e boa tradição brasileira, mesmo depois que o golpe de 2016 e a ruptura democrática levaram à eleição de Bolsonaro.

Será nossa elite liberal capaz de sair do imobilismo histórico e assumir uma agenda nacional de reformas sociais e democráticas que cortem essa vergonha nacional que é a desigualdade? Ou ela acredita mesmo que sem uma redistribuição da renda e da riqueza é possível construir uma nação onde as classes trabalhadoras e a maioria do povo participem da renda nacional e da riqueza criada para viver com dignidade e paz? Será que nem a tragédia que se anuncia, a fome, o desemprego e o risco de convulsão social a convence?

Seja qual for a resposta, nada impedirá uma revolução social no Brasil se o imobilismo e a marcha acelerada para a desconstituição do Estado nacional e das conquistas sociais e políticas continuar. Ela será feita pelas mãos do povo trabalhador, da juventude, dos negros e negras, das mulheres, daqueles que não têm nada a perder, contra a minoria privilegiada que expropria cada vez  mais o trabalho e a produção da riqueza nacional que, sem as classes trabalhadoras, não existiria.

Portanto, não haverá, de nossa parte, nenhuma possibilidade de uma agenda comumbo que não inclua, na pauta, as questões social e nacional, uma revolução social, pactada via Congresso Nacional ou não. Nosso compromisso tem que ser organizar e mobilizar o povo para vencer, nas urnas, as próximas eleições presidenciais e fazer a revolução social que não pode mais ser adiada. Temos que retomar o fio da história de nosso povo para termos uma nação soberana, independente, democrática e justa.

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