Sequestro de Maduro pelos EUA alarma a Colômbia e acende alerta de crise regional

Atualizado em 3 de janeiro de 2026 às 19:37
Marco Rubio e Trump

O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por militares dos Estados Unidos provocou forte apreensão na Colômbia, país vizinho que teme repercussões profundas em segurança, migração e estabilidade regional. Analistas alertam que a operação pode desencadear efeitos em cadeia ao longo da extensa fronteira comum entre os dois países.

O governo colombiano condenou os ataques realizados pelos EUA na madrugada de sábado, que incluíram bombardeios contra alvos militares na Venezuela e o sequestro de Maduro. Em resposta, Bogotá anunciou o reforço imediato da fronteira oriental, com 2.219 quilômetros, historicamente marcada por conflitos armados e produção de cocaína. O presidente colombiano, Gustavo Petro, informou que convocou uma reunião de emergência de segurança nacional por volta das 3h da manhã.

Em publicação nas redes sociais, Petro afirmou que “o governo da Colômbia condena o ataque à soberania da Venezuela e da América Latina” e determinou a mobilização das forças estatais para garantir o controle da fronteira. Especialistas em segurança avaliam que a derrubada de Maduro pode agravar um cenário já deteriorado no país, sobretudo pela atuação do Exército de Libertação Nacional (ELN), principal grupo guerrilheiro ainda ativo na Colômbia.

O ELN controla grande parte da fronteira com a Venezuela e pode reagir à intervenção americana. Elizabeth Dickinson, diretora adjunta para a América Latina do International Crisis Group, afirmou que há “alto risco de o ELN considerar retaliações, inclusive dentro da Colômbia, contra alvos ocidentais”. O grupo atua intensamente no narcotráfico e opera dos dois lados da fronteira, tendo se beneficiado historicamente de relações com o governo Maduro.

O ELN, que se apresenta como um bastião contra o imperialismo dos EUA, já havia intensificado ações violentas em dezembro, após ameaças da Casa Branca contra Caracas. Na ocasião, ordenou que a população permanecesse em casa e realizou ataques a instalações estatais, alegando responder à agressão americana. Diante do novo cenário, o Ministério da Defesa colombiano informou que ativou todas as capacidades das forças de segurança para proteger civis, ativos estratégicos, embaixadas e instalações militares e policiais.

Além da dimensão militar, cresce o temor de uma nova crise migratória. A Colômbia já abriga cerca de 3 milhões de venezuelanos, o maior contingente de refugiados do país no mundo. Petro afirmou que o governo reforçou os dispositivos humanitários na fronteira e mobilizou recursos para enfrentar uma eventual “entrada massiva de refugiados”.

A última grande onda migratória, em 2019, após a fracassada tentativa de Juan Guaidó de derrubar Maduro, exigiu uma operação humanitária de grandes proporções. Agora, o desafio tende a ser maior: a Colômbia perdeu cerca de 70% dos recursos humanitários depois que a administração Trump encerrou programas da USAID no país no ano passado. Lideranças da diáspora venezuelana alertam para o risco de deslocamentos forçados e colapsos locais caso surjam vácuos de poder ou represálias.

O episódio também tensiona ainda mais as relações entre Bogotá e Washington. Petro e Donald Trump vêm trocando acusações desde o início do atual mandato do presidente americano. Trump já chamou Petro de “bandido” e “traficante”, enquanto o líder colombiano criticou o aumento da presença militar dos EUA no Caribe. Ainda assim, Petro evitou alinhar-se a Maduro, a quem já classificou como ditador, e passou a se apresentar como defensor do direito internacional.

No sábado, o presidente colombiano pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, órgão do qual a Colômbia passou a integrar como membro temporário poucos dias antes. Em nova declaração, Petro afirmou que o país “reafirma seu compromisso incondicional com os princípios da Carta das Nações Unidas”, em um momento em que a região observa com apreensão os desdobramentos da ação americana na Venezuela.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.