“Sequestro relâmpago”, um filme necessário em tempos de bolsonarismo. Por Nathalí Macedo

Cena de ‘Sequestro relâmpago’ (Foto: Divulgação)

Poderia ser um filme baseado em fatos reais sobre uma jovem burguesa sequestrada em São Paulo, mas o olhar de Tata Amaral transformou “Sequestro Relâmpago” em uma obra repleto de tensões sociais, raciais e de gênero necessárias para o país do ódio de classes, da misoginia institucionalizada e do racismo à brasileira.

Isabel, personagem de Marina Ruy Barbosa, é sequestrada por dois homens – Matheus (Sidney Santiago) e Japonês (Daniel Rocha) –  e coagida a permanecer com eles madrugada adentro até que as agências bancárias abram as portas e Isabel possa fazer o saque do próprio resgate.

A tensão permanente do espectador vem das aterradoras possibilidades narrativas sutilmente colocadas no filme: a possibilidade de abuso sexual de Isabel; as cenas paralisantes em que o sequestro quase fora descoberto; e as cenas nas quais o espectador tem certeza de que a história real contada no filme terminará em tragédia.

Essa tensão pode levar-nos a supor “Sequestro Relâmpago” como um suspense em torno de um crime: trata-se, na verdade, de uma narrativa política fortíssima, que traz de pano de fundo questionamentos ao mesmo tempo pertinentes e perturbadores: o quanto os burgueses que defendem igualdade social conseguem dialogar não-violentamente com a base da pirâmide social?

O quão política é a violência urbana? O discurso vazio sobre igualdade de fato reverbera na consciência social dos mais pobres? O que há além de dinheiro no lodo do abismo entre as classes no Brasil?

Tata Amaral consegue fazer essas perguntas sem, no entanto, fazê-las.

Em diálogos sutis, lança provocações fortes que tomam o espectador de surpresa. Como quando Isabel procura aproximar-se dos sequestradores a partir do poder do discurso, e falha.

“Nós somos todos iguais!”, argumenta. Matheus rebate com mais lucidez e menos raiva: “Você já foi pra a Disney? Você tem descarga em casa, mina? Então cala a boca e olha pra frente.”

O filme reproduz o que certamente diria a periferia de Mano Brown a essa esquerda identitária bem-intencionada, mas pouco eficiente. “Não força amizade, mina!”

A atuação de Sidney Santiago merece um parêntese por sua sutileza: somada à força narrativa do filme, ela induz o leitor a gostar do personagem que deveria ser considerado um vilão.

Eis a profundidade do olhar de Tata Amaral: não há vilãos e heróis, há uma conjuntura social de desigualdades aparentemente irremediáveis e cujas estruturas parecem prestes a ruir.

A trilha sonora é também um espetáculo a parte, principalmente pela música de abertura, que eu consideraria um hino do feminismo de quarta onda: “Eu sou um monstro”, da sublime Karina Buhr.

Este filme nos faz, sobretudo, questionar nosso senso moral ao nos fazer torcer pelo sequestrador Matheus – ele aparece no início como um pai amoroso, que rouba para comprar fraldas para o filho, mas sobretudo consciente de seu lugar e muito, mas muito distante do conformismo diante dele.

O olhar lançado sobre os sequestradores não é exatamente piedoso: trata-se de um olhar realista, sem a fantasia daquela construção de personagem que em geral transforma criminosos em não-humanos nas telas de cinema e principalmente na televisão.

Atuando como testemunha não-passiva da história trágica da divisão de classes no Brasil, o filme evita o maniqueísmo hollywoodiano e não aponta culpados: em vez disso, lança provocações.

Não há respostas prontas, mas sem dúvida é possível encontra-las a partir de uma reflexão particular.

A cena do abuso sexual de Isabel, por exemplo – desculpem o spoiler, garanto que isso não estragará a sua experiência – soa como uma revelação: prestes a ser estuprada, ela diz ao seu algoz, com a coragem que eu não esperava de uma personagem de Marina Ruy Barbosa: “O D do painel é de Drive, não de dirija!” – referindo-se a uma cena anterior em que o sequestrador supôs que o painel do carro da moça estaria escrito em português. “É isso que separa a gente”, finaliza.

Bingo!

O cabresto da ignorância mantido nos pobres é a maneira mais eficiente que o sistema encontra de mantê-los pobres pela posteridade. É a dominação ideológica, antes da dominação do capital, que primeiro escraviza o pobre privado de educação libertadora e, consequentemente, de sua consciência de classe.

Nenhum filme precisa conter uma grande mensagem para que seja considerado bom, mas este especificamente traz em si uma provocação que não podemos deixar de aceitar: no país onde há um abismo entre Matheus e Isabel, a conciliação de classes pretendida pela nova esquerda é de fato possível?

Todo filme é político, mas uns são mais do que outros.

Vida longa ao cinema brasileiro, sobretudo nestes tempos.

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