Ser mãe de uma menina preta me trouxe muitos desafios. Por Ana Paula Xongani

Publicado originalmente no perfil de Facebook da autora

POR ANA PAULA XONGANI, sócia da Xongani Moda Afro

Imagem da filha de Ana Paula Xongani. Foto: Reprodução/Facebook/Arquivo Pessoal

Em lágrimas escrevo:

Tem muita coisa linda na maternidade, mas tem muitas dores também. Ser mãe de uma menina preta me trouxe muitos medos, muitos desafios e muita força.

É muito triste ver a sua filha sendo rejeitada! Mesmo antes de dizer “Olá!” ela chega perto e todas correm, ela se aproxima, e todas as outras se agrupam, ela chama e ninguem responde. Isolam-a, excluem-a, a machucam.

Ela não entende, mas sente. Não reclama, mas entristece. Meu coração parte!

Dessa vez eu tava aqui espiando, chorando e pensando em formas de acolher a minha filha. Dessa vez eu chamei ela pro meu colo, abracei, disse que ela era linda e inteligente, falei que a amava.

Mas e quando eu não estiver?

A gente sempre fala da solidão da mulher negra, muitas vezes relacionada a afetividade adulta. Mas essa solidão começa muito cedo, começa na infância. O racismo é aprendido pelas estruturas e reproduzido pelos pequenos de forma assustadora. Tivemos avanços, mas as nossas meninas negras ainda são preteridas, rejeitadas, isoladas.

A minha filha eu perguntei:
– Suas amigas não querem brincar?

E ela me respondeu:
– É sempre assim mãe, mas eu não me importo, gosto de brincar sozinha.

Será que gosta? ou aos 4 anos já se protege na solidão?

E pra você que acredita que é “coisa de criança” certamente você nao é uma mulher negra. Nós mulheres negras vivemos esses mesmo traumas na infância, foi ruim mas com o passar do tempo a gente esqueceu, superou ou refletiu em outros momentos da vida. Mas ser mãe te faz reviver alguns deles, e dessa vez de forma mais intensa e muito mais dolorosa.

Doe muito!

*Gravei e publiquei um vídeo/desabafo no canal do youtube Ana Paula Xongani – nome do vídeo: “Tenho Pressa”*