Sergio Moro e a merecida enquadrada que levou de duas mulheres poderosas de Portugal. Por Joaquim de Carvalho

Francisco Van Dunem e Moro: a diferença entre civilização e barbárie

Sergio Moro participou ontem de um dos eventos mais importantes de Portugal, as Conferências de Estoril, que ocorrem de dois em dois anos em Cascais, com a presença de nomes importantes em diversas áreas — este ano, cinco prêmios Nobel e dois presidentes estão lá.

O objetivo é discutir temas de interesse global.

Moro, conhecido pela vaidade, deixou ao Brasil talvez certo de que brilharia, como ocorria no tempo em que ainda podia ser visto como um homem comprometido com a Justiça.

Mas não foi isso o que aconteceu.

Foi recebido na porta da universidade por um grupo de manifestantes que protestava contra a sua presença. “Fascismo, não. Nunca mais”, dizia um cartaz. E este não foi o ato de maior constrangimento.

Lá dentro, quando participava da mesa “De Volta ao Essencial: Democracia e a Luta contra a Corrupção”, ele recebeu as mais duras mensagens, ditas por autoridades de quem possivelmente esperasse elogios.

“O que foi dito no Brasil, durante um bom tempo, revelado por essas investigações, é que havia um quadro de corrupção disseminado”, disse ele.

Joana Marques Vidal, que foi procuradora geral da república em Portugal, não foi pelo mesmo caminho e advertiu que o combate à corrupção deve, sim,  ser prioridade, mas sempre de acordo com as regras democráticas, e deve-se evitar que o tema caia nas mãos erradas.

“Nós não podemos deixar que o tema da corrupção seja o tema dos movimentos autoritários e populistas. Há alguma tendência para esses movimentos autoritários se apropriarem do tema da corrupção, para poder ser a sua bandeira”, afirmou.

Só faltou citar nome Jair Bolsonoro, a quem Moro serve.

A ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, foi questionada sobre a delação premiada, tão defendida por Moro, e criticou o instituto:

“Nós não podemos combater o crime através de qualquer via, através da tortura, não importa. Nós precisamos ser capazes, as democracias têm que ser capazes de se elevar ao nível da sua exigência e de combater o crime de acordo com métodos estritamente democráticos. E no caso português, é respeitando a Constituição. E temos espaço para trabalhar aí.”

A ministra foi aplaudida.

Sergio Moro parecia contrariado.

Com cenho fechado, interveio:

“Na questão da colaboração premiada, viola algum princípio constitucional? Utilizar um criminoso contra os seus pares? Claro: ninguém está advogando aqui que alguém saia por aí na rua com um porrete acertando pessoas acusadas de crime ou suspeitas de crime. Isso é algo diferente.”

O público, que havia aplaudido a ministra da Justiça de Portugal, não se manifestou.

A lição das duas mulheres que ocupam altos postos na hierarquia do sistema de justiça de Portugal foi dada.

Mas é difícil que Moro queira aprender.

Ele já deu demonstração de que gosta de aplausos, e as palmas ontem foram para a mulher que pensa e age de maneira oposta à dele.

Não adiantou Moro afirmar: “Mudei de cargo, mas continuo essencialmente o mesmo”.

Sim, mas poucos sabiam quem ele era até ficar claro que fez dos processos contra Lula uma oportunidade para escalar a montanha do poder.

Na conferência de Estoril, havia dois lados: o da barbárie e o da civilização.

A ministra da Justiça de Portugal representava a civilização.

Como Bolsonaro, hoje Sergio Moro está passando uma péssima imagem sobre o Brasil.

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