Serra versus Suplicy: um testemunho e um paralelo

Eles
Eles

 

A cena era a seguinte:

Na tarde do debate no SBT, o senador Eduardo Suplicy esperava a chegada da candidata de seu partido, Dilma Rousseff, do lado de fora do teatro, no sol.

Ficou ali com os jornalistas, dando entrevistas eventuais, jogando conversa fora ou simplesmente em seu canto, sozinho.

Falei com ele. Suplicy se dizia feliz por estar ali. Contou que pretendia desafiar seus rivais a disputar uma maratona curta. Que estava fazendo mais de 4 mil metros em 40 minutos. Que Kassab lhe parecia em boa forma. Que carregou o candidato ao governo de SP pelo PT, Padilha, nas costas, faria isso de novo e seu ciático nunca deu sinal de vida. Suplicy tem 73 anos.

Para Suplicy, os três nomes que postulam a presidência são excelentes e uma amostra do alto nível da nossa democracia. Marina — a “companheira Marina” — é muito preparada. Aécio, que admitia conhecer menos, é preparado e ele não acha que seja de direita. A presidente é “formidável”.

Os três são “excelentes quadros”. Não reservou nenhuma palavra desagradável a ninguém. Assim que a comitiva de Dilma despontou na entrada do anfiteatro, ele se apresentou ao estafe, foi reconhecido, entrou e não saiu até o fim.

No fim do primeiro bloco, José Serra apareceu. Acercou-se de um pequeno grupo de repórteres por um breve momento. Suficiente para fazer piadas irônicas sobre as “elites” de Marina Silva, tirar um sarro do suposto “convite” para ele integrar um eventual governo dela e detonar mais alguns desafetos antes de se despedir para se aboletar na plateia.

Ambos estão empatados na corrida para o Senado em São Paulo. É interessante como cada um foi “construído”, como gosta Marina, ao longo da carreira.

Suplicy era o Mogadon, o apelido que Paulo Francis lhe deu nos anos 90 (Mogadon era o nome de um ansiolítico famoso). O sujeito que canta “Blowin’ In The Wind” em qualquer lugar. O marido enganado de Marta Suplicy. O pai do Supla. O obcecado pela renda mínima.

Este ano, completa 23 anos de legislatura.

Serra era o gerente, o gestor implacável, um símbolo de competência, fabuloso. O ministro dos genéricos. Ex-governador de São Paulo, ex-prefeito. A altivez paulistana. Tentou a presidência, perdeu. Prefeito, perdeu. Tentou disputar a presidência de novo. Perdeu. Deus sabe dos dossiês que fez contra Aécio Neves. Tenta agora ser senador.

Em tempos de cinismo, nossa tendência é minimizar o papel do bom caráter na política. Sim, é uma simplificação. “Todas as coisas são simples”, disse Churchill. “E muitas podem ser expressas numa só palavra: liberdade; justiça; honra; dever; piedade; esperança.”

Agora, é uma pena imensa que essa maldita maratona nunca vá acontecer.

(Acompanhe as publicações do DCM no Facebook. Curta aqui).