Seu Manuel, primeira vítima fatal do coronavírus, é o retrato do brasileiro que mais sofrerá: pobre e que nunca viajou para o exterior. Por Daniel Trevisan

O vírus não poupa ninguém, mas os mais pobres sofrerão mais. Foto: Carl de Souza/AFP

A revelação do perfil da primeira vítima fatal do coronavírus no Brasil pode dar o resumo do que pode ser a tragédia do coronavírus no país: uma doença introduzida por ricos no país — que viajaram para o exterior –, mas que matará, sobretudo, os mais pobres.

Manoel Messias Freitas Filho, de 62 anos, era porteiro aposentado, o que permite a conclusão de que tinha uma vida modesta. Tão modesta que o hospital onde estava internado avisou primeiramente a imprensa ou às autoridades sanitárias antes de comunicar o óbito à família.

Se fosse alguém de classe média alta ou rica, isso jamais aconteceria.

“Cheguei em casa depois que enterrei meu irmão e foi na televisão que vi a causa da morte. Falta de respeito e humanidade com a gente”, disse a irmã, em reportagem publicada no UOL.

O senhor Manoel Messias não é tipo de pessoa que tem condições financeiras para viajar ao exterior — possivelmente, nunca saiu do Brasil. era um homem doente.

Segundo a irmã, ele não saia muito porque tinha problemas de circulação e passava boa parte do tempo de meias especiais com as pernas para cima.

Tinha trombose, diabetes e eripsela.

O vírus que chegou ao Brasil por alguém que viajou à Ásia ou à Europa vai matar muito mais gente com esse perfil, com a saúde fragilizada por falta de cuidado adequado, que é decorrente de falta de condições financeiras ou de qualidade de vida mais precária.

Não quer dizer que não morrerão ricos no Brasil por conta do coronavírus. Morrerão, mas os meios de que dispõem para enfrentar a doença são infinitamente melhores, a começar pelo próprio estilo de vida.

Manoel, que contraiu o vírus trazido de fora, foi provavelmente o vetor da transmissão para mais quatro pessoa da família — a mãe, o pai e dois irmãos.

Seu enterro foi tão triste que faltou gente para segurar na alça no caixão. Seu Manuel não pode virar estatística. Ele é um indicador de que no Brasil o coronavírus terá um aliado forte: as difíceis condições de vida da maior parte da população.

 

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