Sexo, droga e corrupção: a modelo Cristiana e os ecos de um homicídio nunca esclarecido. Por Geraldo Elísio

Reinaldo Pacífico e a modelo Cristiana: ele foi condenado por matá-la

Se Nelson Rodrigues fala do Sobrenatural de Almeida, eu do Imponderável de Souza, e Gentil Cardoso, da Zebra, inventada pelo técnico, que não têm lugar ou hora certa para aparecer, o passar do tempo remasterizou o crime do SanFrancisco Flat. A modelo Cristiane Aparecida Ferreira, de fato, ingerira veneno, porém forçada, depois de ser estrangulada com uma peça de pano, lutando desesperadamente para não morrer. A farsa demorou um pouco, mas a casa caiu. Um novo laudo veio provar um assassinato. Crime com o acobertamento de vários poderosos de plantão, ainda no governo Itamar, aqui sendo forçoso recorrermos de novo ao flashback. O primeiro laudo, que atestava suicídio, revelou-se peça de ficção. Os médicos legistas responsáveis pelo documento, Remar dos Santos e Tyrone Abud Belmak, não se pronunciaram. Coube ao Ministério Público investigar quem montou a farsa. O MP teve de enviar à polícia diversos ofícios pedindo apuração do caso. “Requisitamos várias diligências, mas elas nunca foram feitas”, narrou o promotor Luís Carlos Martins Costa.

Detalhe a ser observado. Quando a polícia encaminha cadáveres para o Instituto de Medicina Legal (IML), tem de preencher fichas pedindo vários tipos de exames,  bastando marcar  um X em cada um deles, inclusive indícios de agressão física e violência sexual. O corpo de Cristiane foi encontrado na cama apenas de sutiã, sem calcinha e com vários hematomas. Mas os investigadores solicitaram só exame toxicológico, anotando ao lado: Suspeita de suicídio. No cenário, nada sugeria isso. Vidro de raticida, seringa ou bilhete de despedida. O boletim de ocorrência foi lavrado em 6 de agosto. Somente em 11 de dezembro de 2000, quatro meses depois, foi instaurado inquérito policial a passar por muitos delegados e trapalhadas. O ex-namorado, empresário Luiz Fernando Novaes, foi preso e solto por falta de provas. A conclusão final foi, de novo, autoextermínio. O Ministério Público investigou sozinho, colheu 4l depoimentos e pediu a exumação do cadáver.

Outro ex-namorado da moça, Reinaldo Pacifico, um teólogo contra quem Cristiana já registrara um boletim de ocorrência por agressão, a perseguia. Ele ganhava a vida como detetive particular, mas se apresentava como juiz criminal. Lógico ter se tornado o principal suspeito depois de uma testemunha sob proteção federal ter cuspido os feijões ao admitir tê-lo escutado confessar o assassinato. Mas Pacífico teria sido capaz de agir sozinho na etapa seguinte do crime? A de embaralhar pistas, transformar sinais de um assassinato brutal em suicídio?

Isso exige a cumplicidade de policiais, boa vontade da cúpula da máquina de segurança de Minas Gerais, fatos pouco acessíveis a um detetive particular. Mais, entre outros papéis, sumiu o depoimento de um dos irmãos da vítima, Cláudio Ferreira, que havia dado a lista de todas as pessoas importantes com as quais Cristiana teria se relacionado. No tempo das turbulências do período, Marco Aurélio Carone morou no flat de janeiro de 2002 a Janelro de 2003 e conversou com todos os funcionários e ex- funcionários, levantando dados que futuramente foram traduzidos em reportagem. Como não ser assim, os fatos ocorrendo diante do olhar perscrutador de um jornalista?

Cristiane Aparecida Ferreira parece de fato ter sonhado com o estrelato do top models, mas acabou se envolvendo com políticos importantes e se deu mal por suas ações. Não se sabe bem se com a anuência dela ou não, a menina acabou se transformando em mula, não para o transporte de drogas, como é relativamente fácil ocorrer. As sendas que o destino escreveu para ela foram bem mais ousadas e de peso. Além de satisfazer os apetites sexuais de políticos do porte do ex-presidente Itamar Franco, na ocasião governador de Minas Gerais, tendo como vice Newton Cardoso, que antes fora governador, o secretário de então da Casa Civil, Henrique Hargreaves, o presidente das Centrais Energéticas de Minas Gerais – Cemig, Djalma Bastos de Moraes, e o primeiro ministro do Turismo do primeiro governo do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, Walfrido dos Mares Guia, ela acabou tendo funções mais pesadas e comprometedoras. Ser mula para o transporte de dinheiro do Mensalão Tucano Mineiro. Na intenet, é fácil encontrar citações de ménage a trois envolvendo Newton Cardoso, Djalma Moraes e ela.

Itamar Franco e Newton Cardoso, na posse como governador e vice-governador de Minas

A Justiça veio marcar a realização de um júri popular como tantos outros que corriqueiramente são registrados. No entanto, esse júri nada tinha de comum. Bem ao estilo do governo então vigente em Minas Gerais, os jurados iriam deparar com estórias cabulosas de corrupção, sexo e drogas, sendo deixado de lado o rock and roll. A história de uma menina pobre e bonita, ambiciosa por ascensão social, e que viu em seus atributos físicos o caminho mals curto para atender seus objetivos, o que até poderia ter conseguido não fosse sua ambição ter tomado outros rumos para muito além da sensualidade. Não é meu propósito escrever um livro do gênero policial recheado de detalhes mórbidos e picantes. Por isso, o texto é necessário apenas para estabelecer uma linha de conexão.  O empresário Reinaldo Pacifico foi condenado pelo assassinato da moça em júri popular em 2009. A sessão foi aberta às 13h25 do dia 09/01, no I Tribunal do Júri do Fórum Lafayette. Todas as dúvidas foram sanadas então.

Cobri esse rumoroso júri para o Novo jornal. Desmoronada aversão do suicídio pelo promotor Francisco Santiago, partiu ele e assistentes para saber quem tentava abafar a questão. O advogado Dino Miraglia era forte como assistente de acusação no caso. Restava saber quem tentava obstruir o trabalho da promotoria. Cristiane morreu em agosto de 2000 e só dois anos e meio depois é que foi oficialmente divulgada a verdade. Esganadura com um travesseiro ou um lençol enrolado. Ainda semiviva, ela foi forçada a ingerir um tipo de raticida, porém o copo se quebrou e um dos lábios da sua boca ficou ferido. Agredida, as marcas da violência ficaram registradas como mudas testemunhas em seu corpo.

Para a nova conclusão, foi preciso analisar fotos dela, exumar o cadáver e uma necropsia. O MP entendeu as autoridades terem sido relapsas, além do desaparecimento do depoimento de um dos irmãos da vítima, Cláudio Ferreira, fornecedor da lista dos vips a se relacionar com a irmã dele. Um delegado o chamou para negar a validade do documento e aconselhar a não citar nomes. Em meio aos famosos, Jairo Magalhães Costa, diretor do Banco Real, foi o único a admitir ter tido um caso com a menina. Estaria tudo bem se a irmã de Cristiana, Simone Ferreira, não tivesse testemunhado dizendo ela estar se encontrando com Djalma Moraes, presidente da Cemig, apresentado por Henrique Hargreaves. E outra amiga da moça comentar pelo menos um caso como ex-governador Newton Cardoso, o que foi confirmado por um dos irmãos dela no dia do júri, ao conversar com repórteres entre os quais eu me  encontrava. Negado por ele.

Outros parentes apontaram: ela se envolvia com o ex-ministro Mares Guia. Restou apurar a razão do primeiro laudo: ausência de lesões externas macroscopicamente visíveis num cadáver com três fraturas e vários hematomas. Erro grosseiro e comum em tempos de desvio de dinheiro, sexo, droga e, felizmente, deixando de fora o rock and roll, como já disse. Na época era secretário de estado da Segurança Pública o deputado federal Mauro Lopes, do PMDB, no futuro um golpista que abandonou três dias antes o ministério que ocupava, o da Aviação Civil- no segundo governo de Dilma Rousseff — para votar a favor do impeachment que viria a ocorrer. Antes de sair, ele teve um encontro no Palácio do Jaburu com o então vice-presidente Michel Temer, posteriormente O Usurpador. Mauro é pai do então presidente da Assembléia Legislativa de Minas Gerais, Adalclever Lopes.

A sessão do Júri foi presidida pelo juiz Carlos Henrique Perpétuo Braga, e o promotor Francisco de Assis Santiago representaram o Ministério Público. Como auxiliares de acusação, atuaram os advogados Dino Miraglia Filho e Felipe Daniel Amorim Machado. A defesa ficou a cargo dos advogados Eunice Batista da Rocha Filha e Fernando Antônio Santos de Santana. Desconstruída a tese de suicídio, o Júri Popular terminou às três da madrugada de sábado, 10/01, com Reinaldo Pacifico de Oliveira Filho, acusado de matar a ex-modelo, condenado a 14 anos de prisão. A sessão fora aberta às 13h25 do dia 09/01. O Conselho de Sentença decidiu pela culpa do acusado. Ele foi condenado nos delitos constantes do artigo 121, parágrafo 2°, incisos I e III do Código Penal, homicídio cometido por motivo torpe e asfixia. Tendo ele concorrido também para o envenenamento da vítima.

Dino Miraglia, na época do julgamento

O juiz presidente do I Tribunal do Júri de Belo Horizonte, Carlos Henrique Perpétuo Braga, determinou cumprimento da pena inicialmente em regime fechado. Tendo em vista ser réu primário, ter bons antecedentes e ter aguardado em liberdade o desdobramento do processo, o magistrado lhe concedeu a prerrogativa de aguardara interposição de recurso também fora das grades. O plenário esteve lotado durante toda à tarde. Cerca de trezentas pessoas compareceram para acompanhar o julgamento. Às três da madrugada, quase quatorze horas após o início da sessão, aproximadamente 50 pessoas, entre jornalistas, parentes do réu e da vítima e o público em geral, ainda aguardavam a decisão do Conselho de Sentença.

Foram ouvidas oito testemunhas, três de acusação e cinco de defesa. A primeira testemunha, supervisora das camareiras do flat, afirmou que encontrou a modelo morta, no domingo, dia 6 de agosto, pela manhã. Ela disse que a garota tinha o costume de entrar no flat na quinta-feira e sair na sexta. Estranhando o fato, pois já era domingo e Cristiane ainda estava hospedada, tentou ligar para o apartamento e bater à porta, sem obter resultado. Decidiu abrir a porta, mas descobriu que o pega-ladrão bloqueava o acesso. Já suspeitando da morte da modelo, acionou a gerente do flat, que pediu a um profissional que o pega-ladrão fosse serrado. Ao entrar, toi confirmada a desconfiança e a polícia acionada.

A segunda testemunha disse que Reinaldo confessou a ele ter matado a modelo por ciúmes. Disse, Reinaldo contou, que Cristiane estava trabalhando transportando dinheiro de políticos de Brasília para Belo Horizonte.

O ex-presidente da República Jânio Quadros, em idos distantes, disse ser o Brasil um país estranho, onde traficantes tornam-se viciados, cafetões têm ciúmes e prostitutas igualmente têm orgasmo, porém ,como já foi observado em outro parágrafo deste livro, para tudo existe um limite, notadamente para os olhares argutos dos policiais e mentes atentas de promotores empenhados. Existem pessoas que preferem atribuir o dito ao cantor Tim Maia, mas ponho mais fé em Jânio Quadros.

A terceira testemunha, filho da segunda testemunha, disse que ouviu trechos de conversa entre seu pai e o acusado, em que mesmo falou que havia matado Cristiana. O ex-governador Newton Cardoso, a quarta testemunha ouvida no Plenário do I Tribunal do Júri, afirmou não poder ajudar por não conhecer Reinaldo e ter visto a modelo somente uma vez no Palácio da Liberdade. Itamar Franco é quem ficava dando beijinhos nela. Porém, o flat onde a moça morreu a ele (Newton) pertencia. O depoimento de Newton causou frisson entre os jornalistas. Principalmente as afirmações do ex-cunhado, irmão da indigitada modelo.

Para o delegado que concluiu as investigações na época, a quinta testemunha interrogada disse não existir crime, foi auto- extermínio. Ele declarou não haver lesão indicativa de agressão e nem indícios de que Cristiane transportava dinheiro para políticos. Quanto a Reinaldo estar sendo acusado do crime, ele lembrou que até aquele momento ninguém perguntou como o acusado entrou ou saiu do quarto, uma vez que não foi encontrado qualquer vestígio de entrada e saída de alguém. Segundo ele, ninguém é capaz de demonstrar tecnicamente que ocorreu ali um homicídio. Um médico perito foi a sexta testemunha. Ele examinou os restos mortais de Cristiana em exumação feita dois anos depois, em dezembro de 2002. A sua conclusão foi de que a morte se deu por intoxicação com veneno. A sétima testemunha foi um homem com quem Cristiana manteve um relacionamento de maio a dezembro de 1999. Ele confirmou a declaração do Ministério Público de que Cristiana já havia tentado suicídio em duas ocasiões. Segundo a última testemunha, o médico legista que realizou a necropsia, a morte se deu por intoxicação via consumo de pesticida. Por não ser  sua atribuição, alegou que não pode tecer conjecturas se a ingestão do veneno foi espontânea ou não.

O teólogo Pacifico, ao ser inquirido pelo meritíssimo juiz, negou ter matado Cristiana. “A verdade absoluta é que eu não tirei a vida de Cristiana; tinha por ela afeto carinho e consideração”, afirmou. Ele confirmou o relacionamento que durou mais ou menos um ano, a partir de 1996, e que na época da morte dela, já não tinham nenhum tipo de envolvimento amoroso. Ele afirmou que os depoimentos do dono do estacionamento e do filho, que o acusaram de matar a ex-namorada, eram falsos. Declarou ainda nunca ter estado no flat.

Contradizendo o depoimento do médico perito, o promotor Francisco de Assis Santiago apontou outros laudos em que há diagnóstico de asfixia mecânica, fratura e luxação, acreditando em pessoas interessadas no arquivamento do inquérito com a conclusão de suicídio que ele rechaçou, relembrando os sonhos da modelo em progredir na vida e montar uma grife. Segundo ele, o copo quebrado encontrado no apartamento é sinal de que a vítima foi obrigada a ingerir o veneno restante em seu estômago. O assistente de acusação, Dino Miraglia Filho, afirmou que forças ocultas atuaram na investigação, insistindo na queima de arquivo. E pediu aplicação de multa para o ex-ministro Walfrido Mares Guia, que não compareceu para depor, viajando aos Estados Unidos. A defesa, embora tentasse, não conseguiu convencer. A ausência de Walfrido dos Mares Guia suscitou comentários entre os jornalistas, porém sem causar frisson.

Mares Guia: intimado para depor, faltou ao julgamento, em razão de uma viagem ao exterior

Reinaldo Pacífico saiu do fórum condenado, mas até agora não cumpriu um dia sequer dos 14 anos a que foi condenado. E uma pergunta continua pairando no ar relativamente à questão do mando. Para o assistente de acusação Dino Miraglia, a tese da morte da modelo pode mesmo ter sido queima de arquivo, O mesmo para o Novo jornal, que revelou ser isso, com base nas acusações de Dino e de resto as mesmas do promotor Francisco Santiago: a moça ter se transformado em mula para o transporte do dinheiro do Mensalão Tucano Mineiro. Muita coisa entāo foi compreendida, mas não solucionada.

Até o momento em que redigíamos este livro, o caso se encontra sem solução. E o advogado Miraglia mudou-se para o Estado do Espirito Santo para fugir às muitas perseguições das quais foi vítima. Pode ser que no atual estágio da vida institucional brasileira, isso volte à tona. Sem contar que muitos, reservadamente, falam da presença de uma estranha mulher no local do crime.

Geraldo Elísio, autor da reportagem que faz parte do livro “Diálogos com Ratos”

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Nota da redação: No dia 7 de julho, depois de oito anos foragido, Reinaldo Pacífico foi preso e começou a cumprir pena de 14 de anos de prisão. Em entrevista ao DCM, o advogado Dino Miraglia defendeu que as autoridades negociem delação premiada com ele. “Falta punir os mandantes”, disse.

 

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