Sherlock Holmes está viciado em Marlboro

A excelente adaptação para o presente das histórias do detetive mais famoso de todos os tempos, numa série no Netflix.

 

Ele nunca disse "Elementar, meu caro Watson"
Ele nunca disse: “Elementar, meu caro Watson”

Sherlock Holmes é um misógino, viciado, esnobe, eventualmente racista e capaz de resolver os crimes mais cabeludos a partir de um cabelo no sapato de uma velhota. Ou seja, irresistível.

A melhor adaptação dos últimos tempos não é a do cinema, com o corre-corre alucinado de Robert Downey Jr. e Jude Law em dois filmes de ação em que, se trocássemos Holmes por Rambo, o resultado não seria muito diferente.

O grande negócio é Sherlock, no Netflix. As histórias de Conan Doyle na Inglaterra vitoriana foram transportadas para o presente, mantendo todo o allure do original. Holmes ainda mora em 221b Baker Street, é soturno e afetado. Ao invés de cocaína e morfina, ele é dependente de cigarro. Num episódio, estende o braço dramaticamente, os punhos apertados, para mostrar os adesivos de nicotina. Suas crises de abstinência são terríveis. É claro que o doutor Watson é o único ser humano a dar-lhe uma força nessas horas.

Sherlock tem o ótimo Benedict Cumberbatch no papel-título e Martin Freeman como Watson, um veterano do Afeganistão. O Netflix tem duas temporadas, cada uma com três episódios de 90 minutos. O ritmo é alucinante, non-stop, com efeitos na medida e a mistura exata de drama e suspense.

Os autores são os mesmos do seriado Doctor Who, Mark Gatiss and Steven Moffat, fãs de carteirinha do detetive mais famoso do mundo. Gatiss e Moffat são reverentes, mas nem tanto: a certa altura, Holmes e Watson começam a discutir seu relacionamento homo-erótico, o que deve deixar alguns sherlockmaníacos com os cabelos em pé (surgiram bateladas de tumblrs dedicados a essa coisa dos dois).

Estão lá o inimigo mortal, Moriarty (Andrew Scott, diabolicamente competente), o agente da Scotland Yard Lestrade (Rupert Graves) e mais aquela, perdão, plêiade de vilões fantásticos. Agora ele usa um iPhone e Watson conta suas aventuras num blog (na literatura, ele as publicava na revista Strand). Graças a deus ninguém substituiu o clássico chapéu estilo deerstalker por um boné ou algo do gênero. Num episódio, aliás, Gatiss e Moffat encontraram um jeito de colocar o deerstalker naquela brilhante cabecinha.

Fundamentalmente, esse novo Sherlock é aquele velho e bom psicopata altamente produtivo, resolvendo crimes com sua capacidade doentia de dedução, deleitando quem gosta de mistério. Agora, se você for esperar ouvir a clássica frase “Elementar, meu caro Watson”, esqueça. Sherlock Holmes nunca disse isso.

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