Sicário mandou dados sigilosos do MPF a Vorcaro meses antes da 1ª prisão do banqueiro

Atualizado em 10 de março de 2026 às 7:54
Luiz Phillipi Machado Moraes Mourão, o Sicário. Foto: reprodução

Quatro meses antes de ser alvo de um mandado de prisão expedido pela Justiça Federal de Brasília, o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teve acesso a procedimentos sigilosos que tramitavam no Ministério Público Federal (MPF). Entre os documentos estava uma investigação sobre possíveis irregularidades na negociação envolvendo a compra do Banco Master pelo BRB.

Mensagens obtidas pelo Globo mostram que os arquivos foram enviados a Vorcaro em 24 de julho de 2025 por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. O material foi localizado no celular apreendido pela Polícia Federal após a primeira prisão do banqueiro, em novembro de 2025, quando ele tentava embarcar para Dubai com escala em Malta.

Nos registros, Mourão encaminha três documentos em formato PDF com investigações sigilosas da Procuradoria da República no Distrito Federal. Duas delas tratavam diretamente da negociação entre o Banco Master e o BRB, enquanto a terceira apuração envolvia suspeitas de que um triplex de luxo em São Paulo, avaliado em cerca de R$ 60 milhões, teria sido utilizado como pagamento de propina na operação.

Essa terceira investigação estava em fase inicial até que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli determinou, em dezembro do ano passado, o envio de apurações conexas ao tribunal.

Investigadores afirmam que Vorcaro e seus aliados buscavam procedimentos sigilosos utilizando palavras-chave como “Banco Master”, “Vorcaro” e “Nelson Tanure”, apontado pela Polícia Federal como possível sócio oculto da instituição financeira.

Na época em que os documentos foram enviados, em julho de 2025, o Banco Central já havia identificado dificuldades do Banco Master para captar recursos e cumprir compromissos financeiros. O órgão alertou sobre o risco de adoção de “medidas prudenciais preventivas”.

Em abril daquele ano, o Banco Central já havia notificado a instituição de que as medidas adotadas até então não haviam sido suficientes para reduzir o risco de liquidez do conglomerado.

Auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) também apontou “graves irregularidades nas carteiras de crédito cedidas pelo Banco Master ao BRB”, com uso de artifícios contábeis “com o propósito de ocultar a real situação financeira do cedente, caracterizada por um grande volume de operações suspeitas e desprovidas de comprovação financeira, realizadas em desrespeito às normas de boa gestão”.

A Polícia Federal também investiga se houve vazamento da ordem de prisão de Vorcaro. Um dos indícios citados é um pedido protocolado pela defesa do banqueiro na Justiça Federal poucos minutos após a assinatura da decisão judicial.

O documento foi enviado às 15h47 do dia 17 de novembro de 2025, apenas 18 minutos depois de o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, assinar o mandado de prisão às 15h29.

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: reprodução

A investigação aponta ainda que Mourão realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos. Em decisão que autorizou a terceira fase da Operação Compliance Zero, o ministro André Mendonça afirmou que foram identificados registros indicando que Vorcaro teve acesso prévio a “informações relacionadas à realização de diligências investigativas”.

Segundo o ministro, “as investigações também apontam que Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos, incluindo bases de dados utilizadas por instituições de segurança pública e investigação policial”.

Ainda de acordo com a decisão, esses acessos teriam ocorrido por meio do uso de credenciais funcionais de terceiros, permitindo a obtenção de dados protegidos por sigilo institucional. A Polícia Federal afirma que o grupo teria acessado sistemas da própria corporação, do MPF e até de organismos internacionais como FBI e Interpol.

A investigação também identificou o uso de ataques de spearfishing contra servidores do Ministério Público Federal. O método envolve o envio de páginas falsas de troca de senha para enganar usuários e obter acesso a sistemas protegidos.

Segundo fontes ligadas à investigação, Mourão teria criado um ambiente digital que imitava o sistema utilizado por servidores da Procuradoria-Geral da República. Após receberem e-mails falsos solicitando a atualização de senha, alguns funcionários teriam inserido seus dados, permitindo o acesso indevido a dois procedimentos sigilosos relacionados ao caso Master.

Com extensa ficha criminal e histórico de fraudes digitais, Mourão era considerado operador de Vorcaro e recebia cerca de R$ 1 milhão por mês do banqueiro. Ele morreu após tentar suicídio na superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais.

Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que “não cabe comentar conteúdos que decorrem de vazamentos ilegais de material sigiloso”.

“Trata-se, inclusive, de fatos que já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração”, declarou a defesa.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.