Sigilo de fonte vazado: o contraste na mídia entre o caso do Maranhão e os aplausos à Lava Jato

Atualizado em 13 de agosto de 2026 às 7:59
Moro e o jornalista Vladimir Netto, da Globo

A ordem unida contra o ministro Alexandre de Moraes no caso do blogueiro do Maranhão que monitorava os passos do ministro Flávio Dino e de familiares mostra o velho duplo padrão de indignação da mídia.

A mesma disposição para denunciar o fim da liberdade de expressão não apareceu quando a Lava Jato utilizou medidas judiciais para tentar descobrir fontes de jornalistas.

Em março de 2017, o então juiz Sergio Moro determinou uma operação contra o jornalista e blogueiro Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania.

Guimarães havia antecipado informações sobre a ação que levaria Lula coercitivamente para depor em março de 2016. A Lava Jato queria descobrir quem havia vazado aquelas informações.

A Polícia Federal apreendeu celular, computador, pen drive, documentos e outros materiais de Guimarães. Ele também foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento. Perdeu clientes e dinheiro.

Mais grave: a própria investigação utilizou a quebra do sigilo telefônico de Guimarães para chegar à fonte. O Intercept Brasil documentou que a quebra de sigilo foi usada como pista para identificar quem havia fornecido as informações ao jornalista.

A imprensa aplaudiu. Em 23 de março de 2017, Moro determinou a retirada do processo das provas relacionadas à identificação da fonte e afirmou que não pretendia colocar em risco a liberdade de imprensa e o sigilo da fonte.

Depois veio Reinaldo Azevedo

Em maio de 2017, vazou uma conversa telefônica entre o jornalista Reinaldo Azevedo, então colunista da Folha e da Veja, e Andrea Neves, irmã do senador Aécio Neves.

A conversa havia sido interceptada pela Polícia Federal durante a investigação relacionada às delações da JBS e acabou incluída no material tornado público pelo STF.

A conversa não foi considerada pela PF como contendo indício de irregularidade cometido por Azevedo. Ainda assim, seu conteúdo foi divulgado.

O próprio jornalista afirmou que a divulgação de uma conversa privada entre jornalista e fonte representava uma agressão às garantias da profissão.

O ministro Gilmar Mendes disse que a divulgação da conversa era “um ataque à liberdade de imprensa e ao direito constitucional de sigilo da fonte”.

O ministro Edson Fachin também determinou o encaminhamento do caso à Procuradoria-Geral da República para apuração de possíveis crimes relacionados à interceptação e divulgação da conversa. Nunca deu em nada.

Quando a Lava Jato fez busca, apreensão, condução coercitiva e quebra de sigilo para chegar à fonte de um blogueiro crítico da operação, a defesa dessas mesmas garantias não teve o mesmo peso no debate público.

Ainda houve grampo em advogados. Apesar de Sergio Moro ter declarado ao STF que não sabia da espionagem no escritório Teixeira, Martins e Advogados, documentos do processo mostravam o contrário. Em 23 de fevereiro e 7 de março, a Telefônica enviou ofícios à 13ª Vara Federal discriminando detalhadamente os números interceptados e confirmando que um dos ramais pertencia à banca de 25 advogados, com endereço e identificação completos.

 

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.