Silvio Santos obteve 70 mil hectares no Araguaia em 1972, durante governo Médici. Por Alceu Luís Castilho

Publicado originalmente no De Olho nos Ruralistas

Por Alceu Luís Castilho

Existisse em 1972, o Jornal do SBT poderia noticiar uma visita muito curiosa a uma fazenda em Barra do Garças (MT), na região do Araguaia: um homem de quase 42 anos, exportador de gado Nelore, chegava com óculos escuros e barba postiça para vistoriar o local, a Fazenda Tamakavy. Disfarçado. “Estou dando uma incerta”, declarou depois Silvio Santos à revista Cruzeiro, em dezembro daquele ano. “Não quero que saibam que o dono chegou”.

Nos anos seguintes, ele divulgaria a lenda de que nunca visitara a propriedade. “Eu tinha uma fazenda que era a segunda maior do Brasil, a Tamakavi, e nunca fui lá”, afirmou, em 2010, à Folha. “Nem vi no mapa”.

Versões dele mesmo à parte, Senor Abravanel sabia muito bem onde estava pisando. Por achar que estava pagando impostos demais, e diante dos incentivos fiscais do governo federal para a pecuária, ele adquiriu áreas que somavam pelo menos 70 mil hectares no Mato Grosso, onde hoje ficam Alto Boa Vista e São Félix do Araguaia.

Não era a segunda maior fazenda do Brasil. Mas era enorme.

Naquela época quem governava o país era o ditador Emílio Garrastazu Médici.

No UOL, Mauricio Stycer conta que Médici recebeu Silvio Santos duas vezes em 1975. O empresário pleiteava a concessão dos canais Excelsior. O ditador elogiou fartamente aquele que ele chamou de “animador”. Mas a concessão foi parar nas mãos do Jornal do Brasil. A primeira concessão de Abravanel seria outorgada no governo seguinte, em 1976, já sob a gestão de Ernesto Geisel. A do SBT, na época TVS, em 1981, com a ajuda da família do presidente João Baptista Figueiredo. (Ontem, pela primeira vez na história, e por motivos políticos, o Jornal do SBT não foi ao ar.)

Quando Silvio decidiu entrar para a pecuária o governador mato-grossense era outro pecuarista, José Fragelli, da Arena, o partido de sustentação do governo militar. Ele — que presidiu o Senado durante o governo Sarney e chegou a substituí-lo na Presidência — costumava facilitar a entrega de terras devolutas para empresas simpáticas ao regime.

A Agropecuária Tamakavy, vendida para Sílvio Santos pelos usineiros paulistas Orlando Ometto e Renato de Almeida Prado, foi uma das agraciadas pelas políticas estaduais e federais.

CARTÓRIO INTIMOU SILVIO, ÍRIS E ATÉ O SBT

Em 2010, a 1ª Serventia Notarial e Registral de Barra do Garças intimou Senor Abravanel (Silvio Santos), Iris Abravanel, Henrique Abravanel, a Silvio Santos Participações S/A, o SBT e outros antigos proprietários de outra empresa agropecuária, a Fazenda Tiaipe Ltda, entre eles integrantes das famílias Almeida Prado e Ometto, em relação a possíveis irregularidades em imóveis.

Com 29.999,3 hectares, a Gleba São João, da Agropecuária Tiaipe S/A, foi considerada regular. Havia uma coincidência de áreas em uma das matrículas, mas o processo foi arquivado.

No dia 8 de julho de 1972, o Correio da Manhã informava que Silvio Santos acabara de firmar contrato com o Grupo Ometto-Almeida Prado para assumir o controle da Agropecuária Tamakavy, “na área da Sudam”: “A transação envolve uma área de 70 mil hectares, no município mato-grossense de Barra do Garças, compreendendo as empresas Tamakavy, Tiaipe e Barra Atlântica, que agora passarão a chamar-se Baú Agropecuária S.A.”.

A fundação da Agropecuária Tiaipe ocorreu em 1973, ano em que o empresário e apresentador se consolidou como pecuarista na região. Mais ao norte, até o ano seguinte, ainda se desenrolava a Guerrilha do Araguaia.

APRESENTADOR CHEGOU A TER 10 MIL CABEÇAS DE GADO

Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito do Sistema Fundiário, em 1979, o ex-governador Fragelli reconheceu em seu depoimento  irregularidades cometidas na determinação e individualização dos imóveis rurais em Mato Grosso. E definia os títulos de propriedade em seu estado como sendo “de prancheta”. “Os agrimensores jamais teriam vistoriado e medido as glebas in loco“, descreveu Bruna Franchetto em um laudo antropólogico divulgado em 1995. “Isso significaria a nulidade dos títulos concedidos e obtidos por tais mecanismos ilegais”.

Já muito conhecido na época como apresentador de TV, o novo pecuarista estendia seus tentáculos. Além da Tamakavy, Silvio Santos manteve até o fim dos anos 80 as Agropecuárias Tiaipe e São Cristóvão. As três formavam a fazenda Tamakavy. De 70 mil hectares, segundo o livro “Silvio Santos, a Trajetória do Mito“, de Fernando Morgado; ou 95 mil hectares, segundo reportagem de 1988 do Jornal do Brasil.

Ali o empresário chegou a ter 10 mil cabeças de gado. Na época da reportagem, durante o governo Sarney, e enquanto o país discutia a reforma agrária na Constituinte, Silvio Santos ainda tinha 6 mil reses, distribuídas em 15 mil hectares de pasto. Foi quando ele pressionou o governo Sarney, segundo o escritor Mário Ribeiro Martins, para que a capital de Tocantins fosse em Araguaína, ali do outro lado do rio, para que seus negócios fossem beneficiados.

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