“Só graças à pensão sobrevivemos à miséria”: filha de militar perseguido na Marinha conta ao DCM o outro lado da história

D.D.S. e seu pai que foi militar da Marinha

Uma seguidora do DCM nos enviou seu relato a respeito da pensão que recebe do pai militar morto. Ele era negro, da Marinha, pai de cinco filhas que sobreviveram graças a esse benefício que ficou ligado, no imaginário popular, a milionárias mamateiras.

A história é mais complicada:

Sou uma das filhas de militares e nem sempre posso concordar com os comentários de vocês a respeito da pensão. 

O meu pai procedeu o recolhimento da taxa para pensão desde que foi instituída para que nós, as cinco filhas do seu único casamento, não precisássemos depender de ninguém. 

Ele sabia que, tendo filhas negras, estaríamos mais “protegidas”. E é verdade. Ele estava certo: já escapamos de muitos problemas e conseguimos nos manter por conta da nossa pensão. 

Uma das minhas irmãs não teria condição de sobreviver, por conta da sua comorbidade, se não fosse esse auxílio. Hoje ela não está mais aqui.

Meu pai foi um dos que entrou na Marinha achando que teria uma vida melhor. Desde muito pequeno sofreu muito pelo preconceito, tinha mãe solteira que após o parto em outra cidade distante de onde morava,  o entregou para ser registrado por outras pessoas. 

Ele pai morava na Praça da Sé, mais precisamente na Rua Guedes de Brito com a minha avó que era costureira e morava perto da Faculdade de Medicina da Bahia da Universidade Federal da Bahia. 

Queria ser médica, mas ingressou então no curso de enfermeira-parteira. Sofreu muito nas mãos de um homem com quem casou, um motorista de praça mulherengo que a agredia ao chegar em sua casa. Meu pai viu tudo isso e nos orientava sobre não aceitar a violência doméstica.

Meu pai viveu foi morar com um “tio Xisto” (acredito que era seu verdadeiro pai) e retornou à casa da minha avó quase adolescente. Trabalhava como ajudante de ferreiro e, nas horas vagas, fazia entrega das costuras de minha avó. 

Como ele vivia pela Cidade Alta de Salvador, via os navios chegarem e os marinheiros alegres ao chegarem ao Porto do Comércio. Desceu a Ladeira da Conceição e foi até o navio aportado para perguntar como poderia trabalhar ali. Conseguiu entrar.

Aprendeu a nadar à força, após vários caldos com uma corda amarrada  na cintura e empurrões de um trampolim de 20 metros em uma piscina funda. 

Conseguiu aprender depois de muitas tentativas. Serviu no Rio de Janeiro por um tempo. Ao retornar viu o sofrimento de sua mãe com um marido que retirava tudo o que tinha.

Seu Dagoba, como o chamávamos, mudou. Era agora um “empoderado” após entrar na Força. Conseguia ter as mulheres que antes nem teria coragem de chegar perto. Colocou até uma prótese de ouro no dente. Ao fazer o curso para progressão de carreira, não conseguiu lograr êxito e foi posto na reserva.

No final de 1972, mudamos da Bahia para o Rio de Janeiro. Meu pai havia conseguido financiar uma casa do BNH. Vivemos nossa infância no Conjunto Nova Esperança por 10 anos.

“Ficamos sabendo que havia sido ‘apreendido’ como subversivo”

Meu pai freqüentava o Clube da Reserva da Marinha no Rio de Janeiro o CORRM, e quando havia festa arrumava toda a família, as três meninas mais novas com roupas iguais e as duas mais velhas também. Dos  três meninos, dois iam com roupas iguais, feitas por minha mãe. Quando se reunia com a turma da velha-guarda, passava a noite até tarde e retornava para casa feliz.

Em um desses dias ele não retornou. Ficamos sabendo que havia sido “apreendido” como subversivo. Somente Deus e ele sabem o que ele passou desaparecido. A minha mãe não desistiu de procurar. Lembro-me de quando ele retornou. Parecia um graveto. Tinha os olhos sempre em alerta e amedrontados. Teve pânico durante muito tempo. 

Foi afastado, ficou sem o soldo por um longo tempo e não tínhamos o que comer. Minha mãe lavava e passava e minhas irmãs e eu trabalhávamos em casa de família. Eu comecei a trabalhar como empregada em 1979, aos 10 anos.

Retornamos para a Bahia e aqui vivemos até hoje. Eu prefiro ser filha de pensionista a viúva da ditadura. Me informaram há pouco tempo que o meu pai havia sido anistiado. Não sabia que ele havia cometido crime por tomar cervejas com a “velha-guarda”. Meu pai sempre pregou o respeito às Forças Armadas. Fazia cataventos verde e amarelo para nós todo o 7 de setembro.

Com a pensão, consegui com um empréstimo construir a casa da minha mãe, a nossa casa que perdemos, depois de muitos anos. Minha mãe viveu apenas 4 anos ali. Disse que já poderia ir em paz.

Sou servidora publica concursada há 25 anos. Recebia até outubro de 2019 o valor de R$ 788,00 de salário base, mais anuênios e uma gratificação de mais ou menos 62% que elevava o meu salário a pouco mais do que o mínimo. Para alterar o meu salário para o salário mínimo da época, seria necessário alterar (aumentar) a minha carga horária. Meu concurso cobrava a jornada de seis horas para ir para o minimo vigente, ou R$ 998,00. É isso que passamos como servidores.

A pensão me ajudou ajudou a não passar maiores privações. Me ajudou a criar o meu filho. Me sinto em um poço fundo que a cada vez que muda a previdência, jogam água e  eu afundo na lama. Sou casada. Meu marido estava conseguindo trabalhar até a Reforma Trabalhista. Está hoje em um estado que acho que é depressão. Não consegui convencê-lo a ir a um psiquiatra. Então é esse o meu suporte. 

Com a pensão consegui melhorar a minha casa, valorizar o meu bem e sobreviver em caso de necessidade. Me ajudou muito e ajuda ainda hoje.

Não posso falar das viúvas que além de filhas de militares se casam com os militares, de preferência velhos para acumular pensões. Não é o nosso caso. Não existem somente essas pessoas como pensionistas. Conheço de todo o tipo. Inclusive mais de uma.

Agradeço a atenção.  Espero ter esclarecido a minha posição.