Sobram jornalistas, falta jornalismo na Globonews: isso explica por que Moro mentiu sem contestação. Por Joaquim de Carvalho

Uma roda de amigos.

Nas entrevistas da Globonews, não faltam jornalistas, mas falta jornalismo. Só isso explica por que, diante de uma numerosa bancada, Sergio Moro mentiu sem ser contestado.

Ao ser questionado sobre a condenação e prisão de Lula, o ex-juiz disse:

“Há um álibi falso de perseguição política. Ou seja, existem os fatos, e o fato é que a Petrobras, durante o governo do ex-presidente, foi saqueada e num volume sem paralelo no mundo. Vejam que a própria Petrobras reconheceu em desvios de R$ 6 bilhões. Para onde foi esse dinheiro? Foi para exatamente enriquecer ilicitamente diversos agentes públicos que faziam parte daquele governo. E uma parcela do dinheiro foi para beneficiar pessoalmente o ex-presidente. Esse álibi parte do pressuposto de que o escândalo não aconteceu, quando aconteceu debaixo das barbas do ex-presidente.”

Os fatos o desmentem, mas nenhum jornalista foi capaz de lembrar fatos como este:

Foi o próprio Moro quem disse, na resposta a um questionamento da defesa de Lula, em julho de 2017, que não havia relação entre o triplex do Guarujá e a Petrobras.

“Este juízo jamais afirmou na sentença, ou em lugar algum, que os valores obtidos pela construtora OAS nos contratos com a Petrobras foram utilizados para pagamento da vantagem indevida para o ex-presidente”.

Sem ter como apontar o ato de ofício de Lula para caracterizar o crime de corrupção, Moro recorreu a “fatos indeterminados”.

Ora, por fatos indeterminados, qualquer um de nós pode ser preso e condenado, desde que um juiz assim o deseje.

Não seria um programa jornalístico muito mais interessante se um dos numerosos jornalistas presentes fizesse essa colocação?

Poderiam lembrar também que, uma vez admitindo que não houve recursos desviados da Petrobras no caso do triplex, a própria sentença de Lula poderia ser considerada nula.

Isso mesmo.

Sem Petrobras, Moro não teria competência legal — definida de acordo com o critério do juízo natural — para julgar o ex-presidente.

São abordagens técnicas que os jornalistas da Globo passam longe, não necessariamente por inépcia, mas por falta de liberdade editorial.

A versão super herói de Moro foi construída com a colaboração da empresa da família Marinho.

Não existiria Lava Jato nem o juiz em cruzada contra a corrupção sem as reportagens e os editoriais da Globo.

Mas, decorridos já quase três anos da derrubada de Dilma Rousseff, a Globo parece ainda obcecada pelo PT e Lula.

Na noite desta quarta-feira, o entrevistado era o governador do Ceará, Camilo Santana, e os jornalistas insistiram para que ele responsabilizasse os governos federais do PT pela crise da falta de segurança no Estado.

E Camilo Santana entrou na onda.

“Nenhum governo, nem os do meu partido, deu a atenção devida ao tema da segurança pública”, disse ele.

O governador poderia ter sido mais inteligente e acrescentado dois pontos à discussão.

Um deles é a necessidade de rever a legislação sobre tráfico no Brasil, para que usuário não seja encarcerado como traficante.

Outro ponto é a origem da crise nos presídios.

Essa origem está bem definida: é resultado do fracasso dos governos tucanos de São Paulo na administração penitenciária, que levou ao surgimento do PCC.

Se Camilo não disse, os jornalistas poderiam perguntar. Não ficaria um programa jornalístico muito mais interessante?

Parece, no entanto, que a crise da falta de segurança é um tema complexo demais para jornalistas que trabalham com um único tema: a raiz de todos os males é o PT.

Enquanto se comportarem assim, jogarão água para o moinho de Jair Bolsonaro e não ajudarão em nada na nobre tarefa do jornalismo: acender a luz onde há escuridão, esclarecer em vez de confundir, explicar no lugar de publicar dúvidas.

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