Sobre Magnolli e os liberais que deram o braço ao fascismo. Por Fernando Brito

Jair Bolsonaro. Foto: Miguel Schincariol/AFP

PUBLICADO NO TIJOLAÇO

POR FERNANDO BRITO

Demétrio Magnolli e Reinaldo Azevedo, cada um em seu campo, são dois publicistas que, sem nenhum ressentimento por seus erros pretéritos, acompanho com muita atenção.

São liberais remanescentes, papel que deveria ser ocupado por Fernando Henrique Cardoso, se a decadência oportunista e sabuja não o tivesse transformado numa ruína disforme.

Azevedo, com seu exemplar apego à Constituição, merece o reconhecimento de ter sido dos poucos a apartar-se do “jornalismo de histeria” que desaguou em duas bacias: a dos rufiões do bolsonarismo e a dos “moromuristas” que acham Bolsonaro um horror a ser suportado em nome de seus cavaleiros da lei (política) e da ordem (econômica).

Daí a pergunta que já é uma resposta de Demétrio, já há tempos e de novo, hoje, na Folha, faz: “O governo é mesmo um só?”

Demétrio tem tido a coragem de resistir, como um liberal quase solitário, à onda que transformou os que se diziam assim em cúmplices de um governo que não esconde os pendores autoritários e clama – acho que num deserto – para que os “liberais brasileiros” não adiram a uma semiditadura (ou mais que isso), apontando a tolerância, quando não o desejo, em que ela seja a forma possível de implantarem suas propostas.

Aí está a essência do erro mental dos remanescentes “liberais brasileiros”, não terem entendido que, ao contrário, a presença de uma força de esquerda – e esquerda, hoje, salvo exceções pontuais, é centro-esquerda, socialdemocrata) é, como sempre foi, a chave de sustentação de regimes liberais. Aliás, foi a derrota (em geral, por capitulação) da socialdemocracia europeia o que abriu espaço, ali, para o ressurgimento de uma extrema-direita agressiva, de volta aos padrões de antes da II Guerra Mundial.

Tanto é assim que a maior escalada de prosperidade econômica veio num período em que o “novo desenvolvimentismo” brasileiro fez, aqui, às vezes, do conceito de economia social de mercado, aqui temperada com um forte papel do Estado como investidor-financiador, por nossa histórica falta de poupança interna como fonte de capital.

Foi a destruição deste equilíbrio, a ruptura de um pacto eleitoral e a absoluta ausência de liberais com coerência política para manter a disputa dentro das regras do jogo que levou os liberais brasileiro a aderirem, em maior ou menor grau, à aventura fascistóide.

Desembarcar delas vai-lhes custar mais caro do que terem subido a bordo deste arrogante Titanic. E não por falta de mãos estendidas, mas por incapacidade de responderem com um sonoro não à pergunta que lhes faz Magnolli: “A questão não é acadêmica: os liberais brasileiros estão dispostos a seguir a trilha de Bolsonaro?”

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