Sobre os 18 minutos do Jornal Nacional

Hoje a repercussão do JN está virtualmente restrita, paradoxalmente,àqueles que detestam as Organizações Globo

 

Jornal Nacional

Não vi.

Mas, à distância, acompanhei a polêmica em torno dos 18 minutos dedicados pelo Jornal Nacional ao Mensalão.

No meu caso pessoal, o Jornal Nacional sumiu de minha vida em algum momento dos anos 1980. Na redação da Veja, havia uma televisão no fim do corredor, e os jornalistas nos aglomerávamos diante dela quando começava o JN.

Quando saí da Veja, o JN desapareceu para mim – e não retornou sequer nos anos em que trabalhei nas Organizações Globo. Em certas reuniões, as pessoas falavam de coisas ligadas ao JN e eu ficava simplesmente boiando. Ver o JN – que depende da audiência legada pela novela anterior – definitivamente não estava nos meus planos.

Os 18 minutos provocaram barulho. Uma leitora me cobrou: “Você tem que escrever sobre isso. Isso está lembrando 1989.”

Mais tarde descobri que ela não vira o JN. Apenas ouvira falar da cobertura. E 1989 era uma referência à edição desonesta de um debate na Globo que teria sido decisiva na vitória de Collor sobre Lula.

Bem, 23 anos depois, poderíamos estar diante de uma coisa parecida? O milagre pelo qual Serra anseia apareceria na forma de uma reportagem interminável do JN?

Não. A Globo é a mesma no espírito, é certo, mas as circunstâncias são completamente diferentes. Primeiro, a influência da emissora diminuiu consideravelmente.

A Globo vem consistentemente perdendo todas as eleições presidenciais, a despeito do esforço que, em todas as suas mídias, põe na cobertura para eleger candidatos que representem os interesses econômicos dela mesma e de seus acionistas, a família Marinho.

O rugido de outrora virou latido. Num futuro próximo, o latido vai virar miado.

Uma das derradeiras áreas de repercussão política da Globo reside, paradoxalmente, naquelas pessoas que, sobretudo na internet, falam dela incessantemente.

O diretor de jornalismo Ali Kamel, na fantasia dessas pessoas, deixa de ser um funcionário que executa as ordens da família Marinho e é muito bem pago para pensar como seus patrões pensam. Kamel, em vez disso, passa a ser um poderoso fazedor de reis, kingmaker, como os ingleses gostam de falar.

Uma pausa para rir.

Bem, tenho a convicção de que a Globo será relegada ao miado quando ela deixar de ser tão coberta na blogosfera.

As duas melhores respostas ao tipo de jornalismo que a Globo faz são: 1) desligar a televisão; 2) silenciar.

Num determinado momento, o falatório contra a Globo era consideravelmente negativo para ela. Machucava. Agora, paradoxalmente, tem efeito contrário: ao lhe dar uma importância que ela já não tem, o falatório retarda – em vez de acelerar –sua queda.

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