Socialista Seguro derrota extrema-direita e é o novo presidente de Portugal

Atualizado em 8 de fevereiro de 2026 às 17:23
António José Seguro, presidente eleito de Portugal

Neste domingo (08), António José Seguro, do Partido Socialista, foi eleito no segundo turno presidente de Portugal. Seguro bateu André Ventura, do Chega, partido da extrema-direita portuguesa. Ventura nunca escondeu o intuito de ser visto como o “Bolsonaro português”.

Seguro, assim como Ventura, surpreenderam no primeiro turno. O extremista de direita teve 23,5% na primeira volta – 4% acima das previsões das pesquisas. Já Seguro teve 8% mais ante as previsões das sondagens eleitorais.

Ele quase não foi candidato – o PS cogitou apoiar um nome de outro partido para evitar a vitória de Luís Mendes (PSD), candidato do premiê Luís Montenegro. As candidaturas de Cotrim Figueiredo (IL), numa legenda semelhante ao Partido Novo e do militar Henrique Gouveia Melo (Independente) embaralharam a disputa e recolocaram o PS no jogo.

Mendes acabou em quinto lugar, com apenas 11% num melancólico vislumbre para o PSD sobre a próxima eleição legislativa – os sociais-democratas, de centro-direita, devem perder o cargo de primeiro-ministro. Bons desempenhos de Cotrim e Melo também atrapalharam Ventura.

Juventude socialista

O socialista chegou lá com apoios inusitados. A primeira batalha vencida foi dentro do próprio partido, explica Guilherme Karl, cientista político da UERJ. “Os cabeças brancas do partido não o viam como competitivo num pleito com cinco candidaturas fortes. Mas o apoio da juventude socialista o reabilitou no partido”, diz. Seguro mesmo começou na política como presidente da JS.

Isso aconteceu porque Seguro acabou proscrito dentro do PS. Apesar da trajetória como deputado federal (1991-1995), secretário-adjunto no governo António Guterres, eurodeputado entre 1999 e 2001, ele foi considerado responsável pela apertada vitória obtida pelos socialistas em 2014 nas eleições para o parlamento europeu.

Uma “vitória por poucochinho”, como disseram os jornais portugueses à época. Esse cenário levou o PS a plenárias internas, fazendo António Costa, então presidente da Câmara de Lisboa e futuro primeiro-ministro (2015-2024), como novo líder do partido.

Como os socialistas haviam perdido o governo para o PSD em 2024, o PS reabilitou Seguro. O partido precisava das bases e da juventude – ninguém melhor que um ex-presidente da JS para acender a militância e retomar o governo.

Durante as eleições para o parlamento europeu em 2024, havia a preocupação com um possível crescimento do Chega, do extremista André Ventura. O Chega realmente cresceu 8,3%, batendo 9,8% do total. Mas o PS foi o mais bem-sucedido dos partidos portugueses na disputa para as cadeiras em Estrasburgo.

Cordão sanitário

Essa subida do PS, novamente sob a batuta de Seguro, levou a legenda a pensar se não seria possível vencer as eleições presidenciais. A aposta do PS em Seguro mostrou-se correta. No primeiro turno, o resultado foi 8% acima do esperado.

Além disso, diferentemente do Brasil, dos EUA e de vários países europeus onde há o mesmo fenômeno do crescimento da direita fascista, a classe política portuguesa mostrou-se atenta e não cedeu ao populismo. As sondagens mostraram Seguro com 63% a 66% dos votos.

O primeiro apoio veio de Gouveia Melo, o militar independente. Segundo Melo, apesar das diferenças com o PS, jamais votaria em André Ventura. Cotrim Figueiredo sinalizou um apoio indireto.

Já o premiê Luís Montenegro teve uma postura vergonhosa. Declarou neutralidade entre Seguro e Ventura. Mas os correligionários tiveram mais decência. Vereadores, deputados distritais, deputados federais e outros políticos do PSD declararam apoio em Seguro.

Samer Beloni, geógrafo e especialista em geopolítica dá sua visão: “Portugal conseguiu fazer um cordão sanitário em relação à Europa. Os 30% de Ventura são uma mostra que Portugal está lidando melhor com o fascismo do que o resto da Europa”.