“Gaúchos andam assim”: o mimimi em torno da comemoração da seleção alemã em Berlim

 

E então há uma onda de indignação por causa da maneira como jogadores alemães comemoraram o título em Berlim.

Recebidos por uma multidão calculada em 500 mil almas, Mario Götze, Miroslav Klose, Toni Kroos, André Schürrle, Shkodran Mustafi e Roman Weidenfeller se puseram a cantar e a dançar, que é o que as pessoas normais costumam fazer quando ganham um tetracampeonato.

Vestidos com camisas especiais, com o número 1 na frente, eles entoaram um grito de guerra. “Somos gaúchos e gaúchos andam assim” — e se curvavam; “Somos alemães e alemães andam assim” — e voltavam a ficar eretos. (“Gaúcho” é o genérico para argentinos e uruguaios, além do pessoal do RS).

Pronto.

Foram xingados de canalhas, racistas — e nazistas, obviamente. Uns falsos. Parte da imprensa alemã não os poupou. A revista Der Spiegel disse que aquilo “não foi nada simpático”.

Mas a maior parte das críticas veio, como era de se esperar, da Argentina. O jornal Olé, famoso por chamar brasileiros de macaquitos não faz muito tempo, registrou a ofensa. Para o jornalista Juan Pablo Méndez, os atletas são “miseráveis”. Ele também pediu providências à AFA (Asociación del Futbol Argentino).

Menos. Bem menos.

Vamos lembrar das pichações malcriadas no Sambódromo. Sem esquecer que a seleção argentina, Messi incluído, cantou o famoso “Decime que Se Siente” (Brasil, decime que se siente/Tener en casa a tu papá/…/A Messi lo vas a ver/La Copa nos va a traer/Maradona es más grande que Pelé). O “papá” da letra não é a figura paterna dos seus sonhos. E daí?

Bem, a tal comemoração dos alemães não é nova e é uma bobagem. Existe há pelo menos dez anos e é frequente na Bundesliga. Postei no fim deste artigo um vídeo de 2007 da torcida do Hamburgo fazendo a mesma provocação com o time do Nuremberg.

Há pelo menos cinquenta vídeos com a tal música. Mudam os atores, mas a pantomima é igual. Não tem racismo no meio. Os perdedores caminham cabisbaixos, os vencedores não. Perto do modo como, digamos, são paulinos se referem a corintianos no campo — e vice-versa –, é um poema.

Os alemães carregam esse estigma. Qualquer manifestação com mais de meia dúzia de cidadãos pode ser qualificada como um comício nacional-socialista, dependendo da testemunha e especialmente se um deles apontar para um avião com a mão espalmada.

O patriotismo exacerbado, ainda que na celebração de uma conquista de Copa do Mundo, levanta suspeitas imediatas. Chegaram a comparar a agachada do sexteto alemão às caricaturas de judeus no Reich — corcundas e narigudos.

Eles tiraram um sarro dos rivais argentinos, mas quem nunca? Enquanto isso, o “Sou Brasileiro com muito orgulho, com muito amor” está por aí, nos estádios, acabando com o futebol, e ninguém fala nada.

 

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