Somos os alvos da família Bolsonaro. Por Moisés Mendes

Atualizado em 7 de abril de 2026 às 21:15
Flávio Bolsonaro fazendo arminha com as mãos ao lado de Fabrício Queiroz. Reprodução

O cansaço com a extrema direita, que estaria se manifestando nos Estados Unidos e na Argentina, não significa quase nada para os brasileiros. Americanos e argentinos podem estar apenas cobrando de Trump e Milei a piora da qualidade das suas vidas.

Cobram porque o fascismo está no poder. Entreguem o que prometeram, mesmo que façam guerras e persigam imigrantes e se dediquem a picaretagens com criptomoedas. É o que as pesquisas estariam dizendo.

Enganam-se os que apostam na reavaliação de condutas e apoios baseados em valores. Trump e Milei teriam passado dos limites em relação a princípios e referências éticas e morais? Não sejamos tão otimistas.

O cenário brasileiro pode ser apresentado como prova do desprezo por valores aplicados a figuras públicas. Tudo o que os Bolsonaros não expressam, apesar do marketing da religiosidade, da família e da pátria amada, é o compromisso com bons modos.

E nem vamos cobrar deles respeito à democracia, às instituições, às urnas e às eleições. Não é nada disso. Não há como cobrar dos Bolsonaros nada que dê às suas atitudes algum sentido de sensatez.

Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos, em sua prisão domiciliar. Imagem: Adriano Machado/Reuters

Os Bolsonaros foram fracassados numa eleição e numa tentativa de golpe. Estariam, no curto prazo, abatidos e derrotados. Sete meses depois da condenação do chefe do clã e líder da organização criminosa pelo STF, seu filho é o candidato competitivo de toda a direita.

Porque, apesar do aviso das pesquisas do fim de 2025 de que metade da população não votaria num nome indicado por Bolsonaro, o filho tem, numa conta que nem sempre fecha, o apoio integral da outra metade.

Nenhuma pesquisa de nenhum instituto mediu, em momento algum, a percepção das pessoas sobre algum valor elementar, como respeito aos adversários. Isso ainda tem relevância? As pesquisas são esquemáticas e nada dizem sobre sentimentos antifascistas.

Os brasileiros aceitariam, no retorno da família ao poder, um governo exercido nos moldes do que os Estados Unidos de Trump nos oferece? Normalizou-se a possibilidade de cumprimento das ameaças do filho Eduardo?

Bolsonaro, mesmo fragilizado fisicamente, poderia mandar cumprir, num mandato do filho, os avisos públicos que fez antes e durante seu governo? Um novo governo bolsonarista seria capaz de mandar executar inimigos políticos?

Seriam disparadas as armas que o pai e os irmãos empunhavam em aparições públicas, quando faziam pose para retratos ameaçadores? Não é uma pergunta qualquer.

O Brasil não debate se Flavio será privativista, ortodoxo no controle da inflação, sabotador da legislação trabalhista e destruidor do setor público e dos avanços sociais promovidos pelos governos de Lula e Dilma.

Não debate nada sobre as relações que ele teria com o resto do mundo num eventual novo governo de extrema direita. Porque são questões dadas como resolvidas pelo que a família pensa e representa como americanista e entreguista.

Mas o Brasil precisa debater a ameaça real de um governo fascista exercido sob a inspiração da vingança, como se vislumbra em declarações dos filhos que falam em nome do pai.

O Brasil deve ter medo dos Bolsonaros? É a pergunta que os brasileiros precisam fazer, pela primeira vez e em voz alta, desde o fim da ditadura em 1985. Porque essa dúvida não existia quando a democracia foi restabelecida e os militares se recolheram aos quartéis.

Hoje, pelo menos no que é visível, os generais golpistas e seus oficiais estão contidos. Mas o poder civil da liderança de extrema direita e de suas bases políticas e sociais está vivo e ativo.

Os Bolsonaros poderão exercer no Brasil, num segundo governo da família, um poder absoluto e violento como o que marca o segundo governo de Trump? Não vamos parar de perguntar, mesmo que todos nós saibamos que a resposta é sim.

 

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/