“Sou alguém que conheceu o lado honroso e cidadão da polícia”, diz a antropóloga Debora Diniz

Tirinha de Alexandre Beck (Foto: Reprodução)

Publicado originalmente na Marie Claire

POR DEBORA DINIZ, antropóloga

Armandinho nasceu há 8 anos. Seu criador é Alexandre Beck, um ilustrador e contador de histórias infantis. Armandinho é um menino ingênuo, que solta frases ao mundo. No domingo, dia 25/11, ele convidou o amigo Camilo para uma corrida. “Dinho, espera… Não posso correr agora. Pra mim, não é seguro”. No trajeto da carreira, havia um policial gigante parado feito de poste. Camilo é um menino negro, daqueles que quando se vê correndo por aí logo se imagina que é já um fora da lei em idade mirim.

Se Camilo teve medo na fantasia, Beck se “sentiu intimidado” na vida real. De um artista de histórias leves, daquelas sem restrição de idade para serem vistas ou ouvidas, o criador de Armandinho recebeu uma chamada oficial da Brigada da Polícia Militar do Rio Grande do Sul. Foi apresentado um documento aos jornais, com timbre de polícia e título de “Nota de Repúdio”, o que lhe gerou desaforos nas redes sociais. Não era mais Camilo o menino ofendido da história, mas “cada homem e mulher que, diuturnamente, se dedica a zelar por todos os cidadãos”. Havia grito de caixa alta no “todos”, o que me recuso a reproduzir, pois não posso imaginar que Armandinho e Camilo tenham feito homens de farda ficarem tão ofendidos pela realidade do racismo no Brasil.

Eu sou alguém que conheceu o lado honroso e cidadão da polícia. Passei semanas sob escolta policial, recebi militares de diversas patentes me oferecendo proteção. Com eles compartilhei minha intimidade, souberam onde eu morava e minha rotina de vida. A eles ofereço minha profunda admiração e respeito. Mas sei também – e imagino que também eles soubessem – que a realidade de ser protegida pela polícia não é igualmente distribuída para todas as pessoas. Sou uma vítima a ser protegida: uma mulher da elite intelectual do país, professora universitária, porém perseguida por ideais de igualdade. Bravateiros escondidos por pseudônimos quiseram me amedrontar, mas diferente de Camilo eu não deixei de correr. A polícia no meio do caminho não me impôs medo, mas proteção. E por quê a diferença?
Porque sou uma mulher que não representa a bandida a ser perseguida pela polícia. Sou branca, com cara de madame, já uma senhora de cabelos brancos. Nunca fui como o menino que a multidão quer ver amarrada no poste, como Camilo talvez fosse confundido, caso corresse com Armandinho, o menino branco. Talvez fosse tido como um moleque assaltando o menino rico na porta da escola por um tênis. Esse conto não saiu das tirinhas de Armandinho, mas do repertório das notícias. Cabe a mim e à polícia saber que vivemos neste mundo e que se Armandinho é ficção, Camilo é o menino negro que se assusta com a polícia. Se cabe nota de repúdio é contra todos nós que ignoramos o racismo.

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