“Sou conhecida porque sou tetracampeã mundial”: respostas como esta são mais necessárias do que nunca. Por Nathalí

Só se fala nela, e com razão: Karen Jonz, tetracampeã mundial de skate, primeira mulher a vencer do X-games e agora comentarista olímpica festejada nas redes sociais virou assunto mais uma vez ao jantar o apresentador Ivan Moré durante uma entrevista ao vivo.

Logo no início da entrevista, ao apresentar a convidada, o jornalista largou essa: “você que já era conhecida por ser casada com o Lucas, do Fresno, e tem uma filha com nome super diferente, a Sky” (?)

“Não, eu sou conhecida porque sou tetracampeã mundial e primeira mulher a vencer o X-Games”, Karen respondeu, na lata, mesmo diante das tentativas inconvenientes do entrevistador de interrompê-la, atravessando sua fala com um desesperado “na-na-na-na-não”.

Vou te contar: você precisa ler com muita, mais muita dedicação a cartilha do machismo estrutural para apresentar com naturalidade uma tetracampeã mundial como “esposa do Lucas do Fresno”.

E você precisa também ser muito sem noção (inclusive da ética jornalística e da boa educação, mesmo) para interromper, gaguejando, a fala dessa mulher quando ela tenta te responder.

Se você faz isso, amigo, me perdoe, mas sair com cara de paspalho é o mínimo que você merece.

Assistir àquela invertida, eu juro, foi que nem orgasmo pra mim. Ver uma mulher dizendo sem nenhum receio ou constrangimento o que obviamente precisava ser dito… era como se eu mesma estivesse dizendo, você me entende?

Essa tentativa de “entrevista” e a reação da convidada dizem tanta coisa pra quem sabe ver. Dizem muito sobre os nossos tempos, sobre o que significa ser mulher nesses tempos.

A verdade é que, se você for uma mulher, mesmo no século XXI, não importa o que você faça ou tenha – sucesso profissional, mestrado, doutorado, vencer quatro vezes um campeonato mundial ou descobrir a cura do câncer: os olhos mais arcaicos – cada vez mais raros, graças à deusa – sempre te enxergarão como a mulher de alguém.

É o que Naomi Wolf chama de “mito da domesticidade” – um conceito cunhado no Século XIX que pregava a dedicação feminina ao lar como papel social e definidor de sua identidade, conceito este que, para essa autora, foi superado com o advento da Revolução Industrial e a inserção (e exploração) da mulher no mercado de trabalho.

Arrisco e ouso discordar: o mito da domesticidade assumiu outra cara, mas permanece vivo quando, em pleno Século XXI, um apresentador experiente (e grisalho) reproduz machismo estrutural ao vivo, ou uma revista tradicional apresenta uma primeira-dama como “Bela, Recatada e do Lar.

“Ah, mas ninguém nasce desconstruído”

Ivan Moré nasceu há mais de quatro décadas. Já não é sem tempo?

Ele pediu desculpas em vídeo. Apareceu todo alinhado, com aquele semblante tranquilo de quem sabe que não vai dar em nada, disse que “aprendeu com a situação” e vida que segue. Zero consequências. Novidade pra quem? Comportamentos como este são recorrentes porque não são coibidos como deveriam, os homens estão sempre aprendendo, “paciência, homem é assim mesmo, ele já se arrependeu.”

Ao pedir desculpas também à Karen por telefone, ouviu em resposta um educado e diplomático “relaxa, tá tudo bem!”, que para mim soa como “eu já te dei a resposta que você merecia e não vou tripudiar do seu vexame porque sou muito gente boa, entende?”

Já eu – me perdoem, mais uma vez – concordo com uma colega escritora quando diz que “já passou da hora de mandar essa gente à merda.”

Ela contou em um post do facebook que não costumava fazer noite de autógrafos no lançamento de seus livros porque não vê sentido nisso (pensando bem, acho que também não vejo), mas que, certa vez, ao participar de uma antologia, decidiu ir à noite de autógrafos e recebeu a seguinte dedicatória de um colega: “vencendo seus medos, gostei!”

Primeiro, o cara pensa que uma escritora f*da, colunista do New York Times e o escambau, tem medinho de noite de autógrafos. Não satisfeito, ele se sente autorizado a dizer “gostei de ver”, como se isso tivesse alguma relevância.

Isso, meus amigos, é a autoestima masculina.

A gente fica procurando ser educada, levar na esportiva pra não ser taxada de feminista louca, mas a verdade é que mulher bem-sucedida não tem um minuto de paz. Eles tentam nos explicar o que nós já sabemos, eles pressupõem que nunca poderemos ser mais do que esposas ou mães, eles se sentem no direito de nos classificar, eles acreditam verdadeiramente que o juízo que fazem a nosso respeito é tudo o que importa pra nós.

Talvez se Naomi Wolf assistisse a essa “entrevista”  concordasse que, infelizmente, o mito da domesticidade está mais vivo do que nunca em lugares como o Brasil. Por aqui, fazem escola de princesas, determinam cor de menino e cor de menina, tem revista nos empurrando goela abaixo uma primeira-dama “Bela, recatada e do lar” e tem entrevistador enxergando uma tetracampeã apenas como esposa.

Em pleno século XXI, bicho. Já passou da hora de mandar essa gente à merda.

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