“Soubemos utilizar o tempo”, diz ao DCM autor de estratégia portuguesa de combate ao coronavírus

Portugal tem um dos menores números de mortos pelo coronavírus na Europa. Desde o primeiro caso confirmado, em 13 de março, o país contava menos de mil mortes até esta terça-feira. Não é uma boa notícia, mas sinal de que o país virou uma referência no continente na gestão da pandemia.

Em entrevista ao Diário do Centro do Mundo, Dr. Filipe Froes, um dos elaboradores da estratégia concebida no país aponta as medidas adotadas. “Nós tivemos a sensatez de utilizar bem os dias de avanço que a pandemia nos deu para a nossa preparação”.

Em vez de negar a gravidade da pandemia ou sua chegada iminente, Portugal ampliou sua capacidade hospitalar, concentrou esforços na saúde primária e um das mais altas taxas europeias de testes em massa. Um resultado muito menos catastrófico que o dos países do norte.

Consultor da Direcção-Geral da Saúde, Froes fala sobre o uso da cloroquina no país, alerta para os riscos iminentes de uma segunda onda de contágios nos países que conseguirem controlar a primeira. E aponta para um risco adicional, o dos países que pouco ou nada fazem para impedir a propagação do vírus.

DCM: A gestão portuguesa do coronavírus tem sido apontada por diferentes veículos de imprensa na Europa como relativamente exitosa, por um número muito inferior de mortes. O senhor concorda com essa avaliação?

Dr. Filipe Froes: Eu concordo com o fato de que atualmente a situação em Portugal tem apresentado bons resultados. Temos que considerar que Portugal é um país pequeno e fica na extremidade ocidental da Europa e que a atividade pandêmica na Europa não se propagou na mesma dimensão em todos os países.

Isso significa que a atividade pandêmica em Portugal começou mais tarde. Posso dizer que começou cerca de 20 dias depois da Itália e cerca de 10 dias depois da Espanha, o que proporcionou tempo às autoridades públicas portuguesas. Soubemos utilizá-lo.

Não basta ter tempo, é preciso saber utilizá-lo, para delinear uma estratégia, implementá-la e utilizar esse tempo precioso na sua implementação.

Faço parte da equipe que delineou a estratégia, que ao meu ver tem duas grandes virtudes: aumento da capacidade de resposta hospitalar durante uma ameaça pandêmica, expandindo a área e todo o circuito dedicado à infecção Covid-19, sobretudo em cuidados intensivos; e outro aspecto, porque tivemos tempo para fazer e o alcance dessas medidas, com o envolvimento dos cuidados primários, porque se nós formos ver os resultados nos outros países, verificamos que 80% dos doentes atingidos não precisam de cuidados hospitalares, precisam de uma vigilância e manter normas de controle de infecção para não transmitir a doença.

Retiramos esses pacientes do circuito hospitalar, foram e continuam sendo acompanhados a domicílio pela rede de cuidados primários, mantendo uma estreita vigilância do cumprimento das normas de controle das normas de infecção, controle e confinamento, mas também sinais de vigilância clínica e, ao menor sinal de deterioração, eram enviados para os hospitais.

Isso significou que, diferente do que ocorreu na Espanha e na Itália, os hospitais não foram sobrecarregados, não foram inundados por uma avalanche de doentes que dificultaria suas tarefas.

DCM: O senhor evocou como um dos fatores que ajudam a explicar esse relativo êxito o tamanho do país. Portugal tem praticamente a mesma população em número que a Bélgica, mas sete vezes menos mortes e quase metade do número de casos confirmados de coronavírus. Diante disso, o argumento em torno do tamanho do país se mantém?

Filipe Froes: Eu acho que os países menores têm maior facilidade de desenvolver uma resposta articulada rápida. Por exemplo, tanto na Espanha quanto na Itália tem uma grande divisão em regiões, com diferentes níveis de autonomia numa situação de resposta unificada. Pode levar mais tempo implementar uma resposta articulada comum. Então os países pequenos tiveram uma vantagem.

Nós tivemos também a sensatez de utilizar bem os dias de avanço que a pandemia nos deu para a nossa preparação. Quando nós ativamos a rede de cuidados primários, tivemos duas grandes virtudes: tirar os doentes que já não precisavam mais ficar em hospitais, mas também estando em casa sob vigilância e aplicando as medidas de distanciamento, que diminuem o risco de contágio. Isso fez com que nós nunca tivemos uma situação descontrolada dos nossos casos.

Dr. Filipe Froes é consultor da Direcção-Geral de Saude de Portugal

DCM: Muitos países na Europa, principalmente no sul, enfrentaram problemas durante essa pandemia por conta de cortes orçamentários na saúde. Foi o caso de Portugal?

Filipe Froes: É fato que há vários anos nosso serviço nacional de saúde vem sofrendo dificuldades. Mas também temos que ter uma noção: nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir.

Seguir uma estratégia clara fez com que o investimento feito tivesse mais rentabilidade. E a outra estratégia foi aumentar a capacidade de diagnóstico. Aumentamos nossa resposta em termos de diagnósticos. Somos um dos países da Europa que em termos de testes por milhão de habitantes, temos um valor mais elevado.

A identificação precoce de todos os doentes facilitou-nos a estratificação da gravidade e o encaminhamento para os locais certos e também identificar os doentes, contagiosos, que passaram a adotar as medidas de isolamento e diminuíram o contágio. O investimento nessas duas áreas foi crucial.

DCM: Portugal tem usado a cloroquina e associações com ela para tratar os pacientes?

Filipe Froes: Portugal não utilizou tanto a cloroquina. Utilizou mais a hidroxicloroquina numa fase inicial. Dispomos de acesso a todos os fármacos – hidroxicloroquina, azitromicina, remdesivir, temos que acompanhar as normativas internacionais, mas temos ainda que acompanhar as normativas internacionais no sentido de utilizar estes fármacos num âmbito de protocolos clínicos de comprovação de eficácia e toxicidade.

O que posso dizer em relação à hidroxicloroquina é que provavelmente usamos numa fase inicial mais do que agora.

DCM: Por quê?

Filipe Froes: Porque estamos mais atentos à toxicidade. E sabemos que conforme as populações mais graves, as populações idosas com doença cardiovascular, pode haver uma maior toxicidade.

DCM: Em relação à pressão de determinados setores por um desconfinamento e ao mesmo tempo o risco de uma segunda onda de contaminações, essa tensão existe em Portugal?

Filipe Froes: Existe. Nesse momento já temos um calendário de reabertura progressiva do país, que só vai começar de forma muito limitada e sob estrita vigilância. É evidente que todos os países que reabrirem, e Portugal não será uma exceção, terão o risco de um novo aumento, de um recrudescimento.

Temos que ter atenção um outro aspecto essencial. Os países que tiveram mais sucesso no controle da primeira onda também tiveram menos casos na população. Logo a imunidade de grupo será praticamente inexistente. Isso os predispõe a estar em maior risco para uma segunda onda (de Covid-19). Ou seja, o sucesso na primeira onda fragiliza a população em termos de imunidade de grupo para uma segunda onda.

DCM: Como o senhor, enquanto médico que tem elaborado estratégias para conter a pandemia, reage a propostas pelo mundo, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil, de autoridades políticas contra o confinamento?

Filipe Froes: Um problema numa escala global como uma pandemia, nós todos podemos ser parte do problema ou parte da solução. Acho que, nesta situação, parte da solução é adotar as medidas que visam à diminuição de transmissão de uma doença cuja dimensão ainda não temos uma noção completa. Outros países, ao adotarem medidas que não quebram o ciclo de transmissão dessa enfermidade põem em risco a segurança de todos os outros.

Ao continuar a haver transmissão de casos em alguns países, significa que pode haver um recrudescimento em outros países. Eu cito Bill Gates, que diz que o fato de termos que ajudar a todos no controle da pandemia não é uma questão de altruísmo, é uma questão de pulgência e sobrevivência porque o combate a uma ameaça de escala global tem que ser feito por uma coordenação em escala global.

 

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