Strawberry Fields

Beatles no Cavern

Algumas coisas são impossíveis.

Eu morar em Londres e não ir a Liverpool, por exemplo.

Dez razões potentes para que não eu simplesmente não pudesse deixar de ir: Paul, John. George. Ringo. Beatles. Strawberry Fields. Penny Lane. Menlove Avenue. Cavern Club. Julia.

Dez.

Eu tinha que ir. Fui.

Quase que repeti a trajetória rumo ao solo de meu tio João Paulo ao ver, tantos anos depois, o sino da fazenda em que ele cresceu em Ribeirão Preto. Liverpool, como toda cidade portuária, é cosmopolita. Gente que chega e traz hábitos de outras terras, gente que sai e leva Liverpool para o mundo, como os quatro garotos. É fria também, ainda mais que Londres, mas alguém tem que avisar os nativos. Era um fim de semana de começo de primavera. Londres estava em 18 graus, Liverpool em 14 e mais o vento frio, agressivo como um cigano búlgaro. Eu me agasalhei e mesmo assim estava gelado, e os locais andavam alegres em mangas de camisa ou, no caso das meninas, com saias curtas e pés ao vento sem meias.

Tinha que ir ao Cavern, o bar em que eles começaram. Era perto do hotel. Uma das coisas boas de uma cidade pequena é que tudo é perto. No entanto morei a vida inteira em São Paulo e agora, mais recentemente, em Londres. Outro dia li com uma tirada de alguém não lembro onde. Havia uma lista com as melhores cidades para morar e, claro, as pequenas estavam no topo. Mais baratas, mais qualidade de vida, todas essas coisas. “Por que ninguém mora nas melhores cidades para morar?”, alguém perguntou.

Lol.

O Cavern, como o nome indica, é uma caverna. Você entra por uma porta estreita, desce algumas dezenas de degraus e está lá, de cara para aquele palco em que eles surgiram. Cantores e bandas se revezam ali, em geral veteranos barrigudos que tocam músicas dos Beatles para gente de todas as idades. O Cavern é um lugar para um músico iniciar a carreira, como os Beatles, e não para terminar, porque os senhores que tocam lá, a não ser que atendam pelo nome de Paul McCartney ou Ringo Starr, não vingaram.

É um lugar em que um cara como eu passa horas, ouvindo Beatles sem parar, uma pint e depois outra porque depois de duas pints o mundo fica mais bonito, os olhos de frente para o palco e a imaginação voltada para o passado.

Os caras eram bons, realmente bons. Formavam-se filas na entrada no horário do almoço quando os Beatles tocavam lá. Você as fotos e, quase 50 anos depois, ainda fica impressionado. Os Beatles tinham um repertório imenso, de Chuck Berry e Little Richard a Elvis e Buddy Holly, de Carl Perkins às Ronettes, fora as músicas que John e Paul começavam a compor. Dizem que os shows toscos no Cavern foram os melhores que os Beatles fizeram, os mais puros, os mais genuinamente com alma de rock, antes que Brian Epstein os enfiasse em paletós. Epstein tinha uma loja de discos em Liverpool e uma vez foi ver os Beatles no Cavern, tantos eram os pedidos de garotas por algo em sua loja dos Beatles, dos quais ele jamais ouvira falar. Epstein foi um dia ao Cavern e o resto é história.

É um lugar simples e barato, no qual você pode passar algumas horas sem gastar mais que umas 20 libras, e dá para ir sem medo ao banheiro. É um bar modesto, mas quando você está lá é como se 1 000 anos de rock contemplassem você. Não me lembro de outro bar em que eu tenha me sentido tão, sei lá, tão bem como no Cavern. Nunca tinha pisado lá, mas mesmo assim era tão familiar para mim como a casa da minha tia Lili.

Subi ao palco, claro, num intervalo. Saí de lá certo de que um dia iria voltar.

Liverpool é para quem gosta de música. Você ouve boa música ao vivo em quase todas as esquinas do centro, a qualquer hora. Beatles, mas não só. A caminho do hotel, um pouco depois da meia noite, ouvi Your Song, de Elton John, cantada, e bem, por um aspirante ao estrelato.

As pessoas que viajam dividem-se entre os viajantes e os turistas. Viajantes são descolados, passam por nativos. Aplicam-se a eles frases como a de Henry Miller segundo a qual viajar não é apenas ir a outro lugar e sim ver as coisas sob um ângulo diferente. Turistas fazem excursões. São os idiotas das malas e das câmaras fotográficas penduradas no pescoço. Bem, claro que fiz uma excursão, instalado na janela de um ônibus que reproduzia o colorido ônibus de Magical Mistery Tour. O guia era alegre, bem humorado, culto em Beatles. Fez no trajeto um pequeno questionário em que eu, que me julgo bem informado em Beatles, fui miseravelmente mal. Qual o nome do baterista que substituiu Ringo, doente, numa excursão dos Beatles? Me senti humilhado quando a imagem dele na escadaria de um avião me veio à mente, mas não o nome. Claro que havia gente no ônibus que sabia. Jimmy Nicol.

O guia contou histórias como a de Eleanor Rigby, um nome que está gravado num cemitério de Liverpool em frente do qual passamos, e que é o nome de um clássico dos Beatles. Paul, no entanto, jura que o nome foi inventado por ele, o autor. Tudo não teria passado de coincidência.

Strawberry Fields? Visitamos. É um parque menos lindo que a canção, mas como não se comover diante da placa? Penny Lane? Visitamos. Uma rua vivaz, mas também banal se comparada à música. Menlove Avenue, a rua da casa de tia Mimi em que John morou por causa de pais ausentes que o tornariam um gênio torturado? Visitamos. Vimos a casa de todos eles. A de Paul era de classe média, a de John também. Ringo e George tinham raízes mais pobres. Foi engraçado ver um sósia acidental de Paul na casa em que ele passou a juventude com sua Mother Mary, de Let It Be. Tenho para mim que um dos laços mais fortes entre John e Paul derivava da perda precoce da mãe. A Mary de Paul foi levada pelo câncer, a Julia de John por um motorista bêbado que a atropelou, tudo ali em Liverpool. Epstein, que os descobriu, morava na parte rica da cidade, em que havia uma forte comunidade judaica.

Os Beatles, quase 40 anos depois de seu fim, estão vivos em Liverpool, como nos dias em que se formavam filas diante do Cavern para ver aquela bandinha tocar. Os quatro garotos são uma presença ubíqua na cidade. Lá foi o berço modesto em que eles adquiriram a receita majestosa da audácia e da inovação. Os Beatles saíram de She Loves You para Lucy in the Sky With Diamonds sem temer que o rebanho de fãs parasse de segui-los com a alteração da fórmula. Viraram uma referência de progresso mesmo musical mesmo para quem não gosta deles.

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Nisso se distinguiram por completo dos Rolling Stones, supostamente os rebeldes em oposição aos meninos bonzinhos daquela cidade fria no noroeste da Inglaterra, os caras bacanas de Londres em contraste com os provincianos de Liverpool. Mas quem arriscou, quem abriu caminhos, quem esticou limites foram os Beatles, enquanto os Stones estão basicamente há 50 anos tocando, e bem, é verdade, Satisfaction e derivados.

Lennon escolheu viver em Nova York, onde seria morto a tiros aos 40 logo depois de romper com Starting Over um silêncio de cinco anos, por lembrar para ele Liverpool. O melhor da obra de John foi dedicado não a Yoko ou a sua mãe Julia, mas a Liverpool. In My Life e Strawberry Fields Forever, que evocam a pequena cidade portuária, são as maiores composições de John. (Foi uma alegria receber aqui no apartamento de Fulham Ife Tolentino, um talentoso músico brasileiro instalado em Londres há quase 20 anos. Ife tocou para nós In My Life, numa harmonia complexa de bossa nova que me daria câimbra nos dedos, acompanhado da guitarra de Emir, como se pode ver no vídeo.)

Liverpool fez John, Liverpool fez os Beatles, e como uma mãe sábia os mandou para fora quando percebeu que eles tinham que crescer. Como Strawberry Fields, Liverpool é para sempre.

Eu tinha que ir. E agora que fui, tenho que voltar.

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