“Suécia não é modelo contra coronavírus, é uma tragédia”, diz ao DCM virologista sueca

Lena Einhorn, virologista, documentarista e escritora sueca

Jair Bolsonaro citou a Suécia como um exemplo a seguir na gestão do coronavírus pelo novo epicentro da pandemia. Mas o país, quando comparado aos vizinhos nórdicos, é de longe o pior dos casos.

Numa tribuna publicada em abril na imprensa sueca, a virologista Lena Einhorn se juntou a 21 cientistas para criticar a estratégia aplicada pelo governo sueco. Desde então, ela tem denunciado na mídia internacional o que ela define como uma “tragédia”.

Nesta entrevista para o Diário do Centro do Mundo, a cientista e premiada documentarista sueca discorda dos elogios de Jair Bolsonaro e Donald Trump à gestão do coronavírus em seu país. “A Suécia fez escolhas infelizes desde o início. A Suécia não é um modelo a seguir se você quiser superar essa epidemia”, afirma ela, que só conhece dois presidentes estrangeiros que dizem o contrário.

O que deu errado num país conhecido por cuidar de sua população? Nesta entrevista, Lena aponta os erros fatais, que “vão mudar a visão da sociedade sueca”.

DCM: Como a situação do coronavírus tem evoluído na Suécia?

Lena Einhorn: A política não mudou desde o início. O número de mortes na Suécia começou a se sobressair. A maioria dos países que tiveram altos números de mortos registrados – não sabemos sobre os que não tem dados registrados – têm um pico e depois uma queda. Eu não sei se o Brasil tem registrado os casos adequadamente. Na Suécia, esses índices subiram, depois permaneceram estáveis. Eles desceram um pouquinho e depois ficaram estáveis.

Então, na Suécia, a Agência de Saúde Pública diz que a situação se estabilizou. Mas o problema é que na maioria dos países a média diária de mortes caiu drasticamente. As perspectivas dos números de mortos na Suécia são péssimas.

DCM: A senhora não é a única cientista que critica o método do governo sueco. Como avalia a política adotada pela Suécia?

Lena: O problema do governo sueco é que o sistema sueco é assim. Numa situação como essa, o governo toma decisões formalmente mas sempre aceita as recomendações das agências de especialistas. Nesse caso, a Agência de Saúde Pública. É mais do que uma tradição. É como funciona na Suécia. Neste caso e em todos os casos, o governo pode intervir mas não o faz. E neste caso, eles se abstiveram quase totalmente. E isso significa que a política não é conduzida pelo governo mas pela Agência de Saúde Pública. O governo apenas ratifica.

DCM: A senhora quer dizer que a Agência de Saúde Pública sueca não tomou boas decisões?

Lena: Sim, é isso mesmo que eu quero dizer.

DCM: Mas como, se eles supostamente contam com cientistas?

Lena: O problema é que eles são humanos. E a Suécia fez escolhas infelizes desde o início. E isso é perdoável. As pessoas não sabiam como essa pandemia iria evoluir. Muitas pessoas pensavam que seria como (a epidemia de) Sars.

Sars teve uma mortalidade mais alta, mas foi contida antes de chegar à maior parte do mundo. Foi contida principalmente no sudeste asiático. Então muitas pessoas partiram do princípio que aconteceria o mesmo com a Covid-19. A Agência de Saúde Pública Sueca também. Isso teve dois efeitos.

O primeiro efeito é que eles não estavam preparados para uma epidemia. Durante a maior parte do tempo, eles disseram que o risco de se tornar um problema na Suécia era muito baixo. E então eles não reforçaram a capacidade de testes. E eles não reforçaram a proteção via máscaras. Esse foi um dos erros que eles cometeram.

O outro erro que eles fizeram, o qual eu diria que foi decisivo e sobre o qual se negaram a recuar foi, apesar das abundantes evidências científicas, dizer no início que a doença era igual à Sars, apenas contagiosa quando se tem sintomas. Então a recomendação principal deles foi “fique em casa se você se sentir doente”.

Ontem, quando Anders Tegnell, epidemiologista estatal da Suécia, estava no (programa) Hardtalk, na BBC, a última pergunta que foi feita foi: “você vai usar máscaras agora?”. A resposta foi: “Na Suécia, não usamos máscaras, ficamos em casa se nos sentimos doentes”.

DCM: Ainda na mesma estratégia?

Lena: Até hoje, eles são contra o uso de máscaras até nos asilos quando a pessoa tratada não está doente. Eles não têm nenhuma consideração em relação a pessoas pré-sintomáticas ou assintomáticas quanto à propagação da doença. Eles até dizem que as máscaras podem ser perigosas porque se você coloca a mão sobre a máscara o vírus pode estar em algum lugar nela, o que implica que o vírus esteja sobre a máscara. Então toda a argumentação é estúpida. Você compreende isso?

DCM: Sim, o que eu não entendo é que o país tem acesso a muitos dados, inclusive em relação a seus vizinhos, Dinamarca, Noruega, Finlândia, que têm uma mortalidade muito mais baixa, e não muda nada.

Lena: Claro. É o que estou dizendo. Eles são humanos. Essa é a questão. E ainda mais agora que os números são tão altos. No dia 15 ou 18 de maio, tinha a maior taxa de mortos do mundo em média na semana passada.

Quando comparam a seus vizinhos, que têm números muito mais baixos, eles têm talvez duas mortes por dia, enquanto a Suécia têm talvez 60 ou 70 mortes por dia. Foi quando eles começaram em falar em imunidade coletiva. Eles nunca falaram em imunidade coletiva como uma política mas como um resultado, um bônus, quase, de sua política.

Então quando se fala em imunidade coletiva, eles dizem que não é a estratégia deles. Eles negam. Porque essa é a única “vantagem” de ter pessoas doentes e morrendo. Senão não há nenhuma vantagem em ter tantos doentes e mortos.

Então a imunidade coletiva se torna uma justificativa para haver doentes e gente morrendo. Eles não vão dizer que é a estratégia deles, mas vão continuar falando disso. E vão enaltecer os números suecos de pessoas com anticorpos para mostrar o quão alta está a imunidade coletiva. Eles fazem isso todo o tempo. Eles dizem que vão provavelmente atingir a imunidade em meados de maio ou que em primeiro de maio tinham 26% de soropositivos. Alguém na Agência de Saúde Pública disse que na metade de junho serão 40% de soropositivos. Quero dizer: não há fundamento nisso.

Ontem, a testagem foi feita num hospital e mostrou em torno de 15% de infectados, mas isso é um hospital. E eles dizem que é um reflexo do que aconteceu na sociedade três semanas atrás, que na realidade agora temos mais de 15%. Então, basicamente estão alegando que não é a estratégia deles, mas ao mesmo tempo…

DCM: Estão praticando-a.

Lena: Sim. Você não tem outra justificativa a não ser econômica. Outra justificativa é deixar a economia manter as pessoas alegres em vez de confinadas. Isso é muito difícil de justificar diante desses altos números. Mas se você me perguntar por que eles não estão mudando de política, e isso é uma hipótese que faço, minha especulação, é que eles se negam a recuar. Porque se recuam e admitem que cometeram um erro, isso significa que se tornam responsáveis por muitas mortes. E eles não querem isso.

DCM: Ao mesmo tempo, a senhora mencionou pessoas felizes. Mas como podem estar alegres quando vemos que essa estratégia fracassou no Reino Unido? A população está aceitando essa estratégia?

Lena: Sim. Nem todo mundo. A maioria não vê essas mortes. É teórico para a maioria das pessoas. São na maioria idosos os que morreram, não pessoas próximas. Para a maioria das pessoas, é assim. Elas estão felizes podendo caminhar, deslocar-se, sentar num café, claro que isso é mais legal que ficar trancado num apartamento.

A segunda razão pela aceitação é que a Agência de Saúde Pública está constantemente apresentando sua estratégia como um sucesso. Eles não querem colocá-la numa perspectiva global. Eles nunca dizem que perderam o controle. Eles dizem que a situação é estável, que as hospitalizações caíram, que há vagas em UTI. Eles apresentam-na numa maneira muito positiva.

Gráfico da plataforma Our World in Data, da Universidade de Oxford, mostra número de mortes pela Covid-19 confirmadas diariamente numa média de 7 dias, desde as primeiras cinco confirmações. Dentre os países do norte europeu, a Suécia, que não optou por um confinamento, sempre deteve os piores índices. Mas ao longo do tempo, a distância em relação aos países vizinhos, que se confinaram, aumentou. Enquanto o pico no número de mortos da Suécia, que tem aproximadamente 10 milhões de habitantes, foi de 100 mortes por dia, o pico na Noruega (população de 5 milhões de pessoas) foi inferior a sete. Considerando os últimos dados, a Suécia tem uma mortalidade quase 26.000% maior que a norueguesa.

DCM: Como profissionais e comunidade científica estão se sentindo?

Lena: Ainda no (programa) Hardtalk, ontem, na BBC World, Anders Tegnell falava sobre nós. Fomos 22 pessoas a assinar um manifesto no dia 14 de abril, incluindo alguns dos maiores cientistas em seus campos, a virologia, a epidemiologia, assinando o manifesto contra a estratégia da Agência de Saúde Pública.

Ele disse que não somos os mais importantes nem os melhores cientistas da Suécia. Eu não sou uma deles porque eu não trabalho com eles. Eu sou uma das signatárias. Eu não trabalho mais como virologista, mas como escritora. Mas outras pessoas (dentre os signatários) são muito bem estabelecidas e proeminentes em seus campos. Vários trabalham especificamente com o vírus que causa a Covid-19. E ele disse que não são muito proeminentes. Ele disse que há 40 mil cientistas na Suécia e que a maioria apoia a política da Agência de Saúde Pública. São argumentos do tipo “ad hominem”.

Agora, o que a comunidade científica realmente pensa? Eu acho que há uma divisão. Eu penso que a Agência de Saúde Pública está perdendo a confiança entre a comunidade científica. Hoje, a ex-epidemiologista estatal, saiu na mídia dizendo que não considera uma política exitosa. Penso que isso não deve mudar na população em geral, mas sim entre os cientistas. Mas ninguém sabe porque ninguém tem estudado isso. E é um fato que ninguém ousa aparecer na mídia ou escrever artigos sobre, só provavelmente uma minoria.

DCM: Você sente uma espécie de obscurantismo no ar ou perigo para a democracia?

Lena: O que obscurantismo quer dizer?

DCM: A recusa da crítica feita pela ciência, da posição da ciência, e ao mesmo tempo uma atmosfera de ocultação da crítica ou de ausência de crítica?

Lena: É muito interessante. Todo dia, às duas horas há uma coletiva de imprensa com a Agência de Saúde Pública e outras agências envolvidas, com outras autoridades. E a Agência de Saúde Pública sempre ocupa a cena central. Eles sempre conduzem a crítica de maneira muito habilidosa, senão de um jeito não muito honesto.

Então hoje, por exemplo, quando a ex-epidemiologista estatal saiu nos jornais dizendo pensar que a estratégia atual não é exitosa, um jornalista perguntou sobre isso. E eles responderam que ela não trabalha mais com eles.

Ela disse que a Suécia deveria ter feito a quarentena por um período curto no começo, como muitos outros países fizeram. Eles disseram que um curto período não teria feito muita diferença, que países diferentes têm resultados diferentes.

E depois, numa coletiva de imprensa hoje houve dois jornalistas estrangeiros, um do Financial Times e outro do Le Monde, que perguntaram sobre os verdadeiros números de mortes, sobre o fato de a Suécia apresentar os maiores números de mortes do mundo nos últimos sete dias.

Responderam que não viram esses números, que não se pode contar mortes com média de números, que o número de mortes reflete o que aconteceu muitas semanas atrás e não reflete o que acontece hoje. Que não se pode olhar apenas para o número de mortos, que é muito mais complexo do que isso, que é preciso olhar para situação como um todo e investigá-la. Não há respostas.

Uma jornalista sueca perguntou a Tegnell: “como você não advoga o uso de máscaras para os todos os idosos, em vez de apenas para os que estão obviamente doentes?”. Ele disse que a questão é muito complexa, que você não pode se concentrar sobre um elemento e dizer que isso vai resolver o problema como um todo, que eles estão investigando isso, que é muito mais complexo do que máscaras.

Então ela prosseguiu e disse: “Vocês não podem resolver nem que seja um pouquinho, então? Falando-lhes para usar máscaras?” Eles disseram que não sabem se vai resolver um pouquinho.

DCM: Como a senhora reage ao fato de que a extrema-direita do Brasil está citando a Suécia como um modelo a seguir?

Lena: A extrema direita nos Estados Unidos também citou a Suécia como um modelo a seguir. Eu estava falando numa rádio nos Estados Unidos ontem, porque eles queriam abordar essa questão em particular. Então eu disse: “Tudo que você tem que fazer é ir até (o site) Our World and Data”. Clique em “Daily deaths over an average rolling back seven days” (média de mortes diárias nos últimos sete dias”. E o que você vê para cada país, exceto a Suécia, é que as curvas descem drasticamente. Na Suécia, segue alta. A Suécia não é um modelo a seguir se você quiser superar essa pandemia.

DCM: De que forma a senhora reage ao fato de que é a extrema direita que está pregando um modelo sueco?

Lena: Na Suécia, o apoio à Agência de Saúde Pública tem sido mais da esquerda do que da direita, nem tanto da direita. Eu sou uma social-democrata. Mas esse não é um corte muito claro, se é de esquerda ou de direita, mas se você quiser olhar por esse ângulo, há mais apoio na esquerda.

Quanto ao apoio internacional à Agência de Saúde Pública, só conheço o caso de Bolsonaro e da extrema direita americana. São esses os dois exemplos que tenho visto. Mas não estou certa de que seja pela mesma razão. Nos Estados Unidos, a questão é “business” – os negócios. Eles querem uma abertura para os negócios. Com Bolsonaro, eu não sei. Talvez sejam os negócios também.

DCM: Você vê a situação na Suécia como uma tragédia?

Lena: Sim, absolutamente. Isso vai mudar fundamentalmente a visão sueca da sociedade sueca porque a Suécia é conhecida por ser um país que cuida muito bem de seus cidadãos em diversos âmbitos. Pouca pobreza, muito humana, e agora estamos fazendo exatamente o inverso. Eu penso que por uma razão: os políticos suecos abdicaram de seu poder sobre a situação quanto à Agência de Saúde Pública. E na Agência de Saúde Pública, só há realmente uma ou duas pessoas que tomam as decisões, mesmo sendo uma grande agência.

A Agência de Saúde Pública e o epidemiologista estatal receberam tais poderes e não recuarão de suas visões iniciais. É uma tragédia na Suécia. Fazer coisas estúpidas como essas não corresponde à visão tradicional da Suécia.

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