
Por Bruno Soares, especial para o DCM
O governo de São Paulo encerrou com vaias no último dia 25 a rodada de audiências públicas do Universaliza SP, programa da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) que prevê a privatização dos serviços de água e esgoto em municípios fora da área operada pela Sabesp após a venda da companhia.
O episódio ocorreu em São Carlos, cidade de 255 mil habitantes no centro-leste paulista, onde a secretária estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, foi vaiada durante audiência pública realizada no Teatro Municipal. O público gritou “A água não é mercadoria” enquanto a representante do governo defendia o programa. Assista aqui ao vídeo.
Natural de Uberaba (MG), mas tendo passado a maior parte de sua vida em Formosa (GO) e Brasília (DF), Natália Resende é conhecida como a “supersecretária” de Tarcísio, e está viajando por todo o estado tentando angariar apoios ao governador, muito embora jamais tenha morado em São Paulo até assumir o cargo público que ocupa atualmente.
No último dia 25, em seu discurso em São Carlos, que competia com as vaias no auditório, a secretária afirmou que o governo estava no evento “para ouvir” a população, e que o processo de privatização vinha sendo conduzido “de forma muito técnica” e “sem ideologia”. A audiência havia sido transferida para o Teatro Municipal devido ao alto número de inscrições.
O Universaliza SP prevê a formação de blocos regionais de saneamento e permite que sistemas atualmente administrados por prefeituras, autarquias municipais, companhias mistas ou concessões locais sejam incluídos em contratos de até 35 anos com empresas privadas, que passariam a comandar os sistemas de água e esgoto dessas cidades.
Segundo o governo paulista, o universo potencial de aderentes ao programa é formado por 274 cidades fora da área da Sabesp, com cerca de 14,6 milhões de habitantes, mas alguns municípios já formalizaram sua exclusão do plano de privatização promovido pelo Palácio dos Bandeirantes (leia mais abaixo).
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A resistência ao Universaliza SP cresceu nas últimas semanas com a recusa formal de municípios em aderir ao programa. Em 5 de maio, São José do Rio Preto, cidade com mais de 500 mil habitantes no noroeste do estado, anunciou a retirada do programa. A decisão foi atribuída pelo SeMAE (Serviço Municipal Autonômo de Água e Esgoto) ao fato de o município já superar as metas nacionais de saneamento.

Já no dia seguinte, o município de Votuporanga, também no noroeste paulista e com mais de 100 mil cidadãos, interrompeu os estudos de adesão, após pressão de entidades da sociedade civil, servidores da autarquia municipal e de vereadores. Parte das críticas partiu de parlamentares de partidos alinhados ao governador, como PL e PRD. Resultado: a cidade também deixou o programa.

O debate também avançou em Araraquara, São Carlos e Campinas. Nessas cidades, representantes de autarquias, sindicatos, movimentos sociais e parlamentares passaram a questionar a entrada de estruturas municipais no modelo estadual.
O desgaste ocorre em paralelo ao aumento de reclamações contra a Sabesp após a privatização. Em Caraguatatuba e Carapicuíba, câmaras municipais abriram CPIs para investigar falhas de abastecimento, tarifas e qualidade dos serviços.
Levantamento baseado em dados da Arsesp apontou alta de 70% na média mensal de reclamações contra a Sabesp em 2026, na comparação com 2025. As queixas sobre descontinuidade no abastecimento cresceram 224%. A situação foi amplamente divulgada pela imprensa nacional.

A rodada de audiências do Universaliza SP incluiu encontros presenciais em São Caetano do Sul, Americana, São Carlos e Junqueirópolis, além de uma audiência virtual estadual realizada em 27 de maio.