Tábata Amaral, a deputada que é a prova viva de que a escola pública não faliu. Por Pedro Zambarda

Tábata Amaral

Criada na Vila Missionária, bairro pobre localizado na Zona Sul de São Paulo, Tábata Amaral é filha de cobrador de ônibus e de uma diarista. Criada no cotidiano da periferia, ela se interessou por matemática, venceu competições internacionais e ganhou uma bolsa para estudar em Harvard.

Desde 2014, ela é militante e criou Mapa Educação e o Movimento Acredito. No ano de 2017, Tábata foi uma das onze lideranças que participaram de um encontro com o ex-presidente americano Barack Obama em sua passagem por São Paulo. No ano seguinte, ela foi a mais jovem liderança a participar de um debate com a ativista paquistanesa e Nobel da Paz, Malala Yousafzai, em sua primeira visita ao Brasil.

Tábata é um grande contraponto aos projetos bolsonaristas. A deputada Joice Hasselmann, por exemplo, disse que os professores “não sabem ensinar“, e questionou os investimentos em educação.

O DCM procurou Tábata Amaral para saber a opinião dele sobre assuntos em pauta e como pretende agir nesses tempos estranhos com Jair Bolsonaro presidente.

Diário do Centro do Mundo: Você teve mais de 260 mil votos, veio da periferia, estudou em Harvard e participou de movimentos de renovação política. Como foi esse caminho?

Tábata Amaral: Se eu tivesse que resumir a minha trajetória pública em poucas frases, é que eu tive muitas oportunidades educacionais que começaram com a atitude de uma professora da rede pública, uma professora de matemática, que me incentivou a participar das Olimpíadas de Matemática. Essas oportunidades me levaram a conhecer um mundo que eu sequer sabia que existia pra mim.

Foi através da educação que eu fui pra Harvard com bolsa. Eu pude escolher um futuro pra mim e vi um futuro pra mim também. Sendo da periferia e morando na periferia, eu sempre tive uma vida muito próxima da falta que a educação faz com as pessoas. Isso se deu com a perda do meu pai, dos meus amigos e dos meus vizinhos pras drogas, pra violência e pro crime.

Viver tão de perto o poder transformador da educação, mas também a falta dela e o tanto de vidas que são ceifadas na periferia me fez entender que devo lutar por educação de qualidade não só para alguns. É para todos.

Depois de nove anos de ativismo na educação, eu percebi que o problema não está na educação. Está na política, está com os políticos. Se eu tivesse que resumir o que me trouxe até aqui, é essa compreensão que temos que mudar a nossa política pra que a gente tenha oportunidade para todos. Isso é o que me move.

Saber do potencial que a gente tem, mas também saber em qual estado está a nossa periferia hoje.

DCM: Por qual razão você escolheu o PDT como seu partido?

Tábata Amaral: Eu conheci o trabalho de alguns políticos do PDT, sobretudo no Ceará, quando eu trabalhei em Sobral nos anos de 2014 e 2015. Poder ver uma cidade no Nordeste, que tem a melhor educação pública no Brasil, acima de países desenvolvidos, me deu a certeza de que é possível que o país tenha a melhor educação pública do mundo.

No momento que eu decidi me candidatar e me filiar, pra mim foi muito importante escolher um partido que tivesse uma pauta de educação que eu acredito, que me representa e pela qual eu posso lutar.

Estou no PDT pela pauta de educação e tive muitas oportunidades de levar adiante essa luta.

DCM: Você esteve reunida com Barack Obama e com a ativista Malala, que levou um tiro quando militou pela educação para mulheres. Essa visão internacional estará presente no seu mandato?

Tábata Amaral: Tem duas coisas que eu aprendi tanto com Obama quanto com a Malala e que eu estou tentando implementar no nosso trabalho hoje. Uma das coisas mais bonitas que Obama fez em suas campanhas foi entender que a política se faz no local. Se faz no bairro, numa escola, na sua comunidade, mesmo que as redes sociais ajudem a chegar no local. Mas elas são só um meio.

O que acontece no olho a olho, quando você compartilha um lanche com alguém, é isso que faz as coisas mudarem. Em inglês, eles chamam isso de “organizing”, o que para a gente seria algo como mobilização social, comunitária. Esse tipo de aprendizado eu quero levar pro mandato. Como não esqueço disso, aqui em Brasília eu faço isso pelas pessoas das comunidades.

Com a Malala, o maior aprendizado que ficou foi que o tamanho das coisas que realizamos tem a ver com o tamanho da nossa coragem, com as pessoas que estão ao nosso lado e não tanto com habilidade x, y ou z. Então eu me inspiro muito nela para ter vontade de mudar as coisas e para caminhar com muitas pessoas ao meu lado, pois só assim teremos transformação. São essas visões dos dois que estão me inspirando no mandato.

Tábata: com os colegas em Harvard

DCM: Como impedir retrocessos na educação no governo Bolsonaro?

Tábata Amaral: Tem uma coisa que eu tô batendo muito na tecla. É que eu sou oposição e discordo da grande maioria, senão tudo, que o novo governo vem apresentando na educação. Mas a minha principal crítica é que o governo vem se posicionando sobre pautas ideológicas que não têm um grande impacto na educação pública do Brasil.

Sou contra Escola Sem Partido, não acho que educação domiciliar deva ser prioridade e vai impactar no máximo 30 mil famílias. A gente deveria estar se preocupando com 50 milhões de alunos que não aprendem a ler e escrever, não aprendem frações, não tem a menor chance no vestibular.

O meu principal ponto é: eu vou ser oposição e vou criticar o que pra mim não faz sentido, mas sempre vou abrir diálogo com pautas que fazem sentido e que tenham impacto em milhões de pessoas. Quero ter a oportunidade de falar, sim, com o governo. Sobre financiamento da educação, Fundeb vence em 2020, sobre a carreira dos professores, que é uma bomba-relógio que a gente tem que olhar pra ela com a urgência que ela merece, falar sobre alfabetização e todos esses temas que não viralizam nas redes e que podem de fato virar o ponteiro na educação.

DCM: O que você acha do projeto anticrime do ministro Sérgio Moro, levando em conta o que você viu na periferia?

Tábata Amaral: A proposta do ministro vem mudando bastante e devemos olhar a fundo o texto para saber o que de fato auxilia no combate ao crime organizado e o que vai contra os direitos humanos. Acho que temos os dois elementos na proposta.

Muito da pergunta que eu levei pra ele na apresentação desse projeto é pautado no que eu vivi na periferia. E sinto muita falta de duas ações, que pra mim são importantes e urgentes: uma delas é um olhar para a carreira do policial, para as forças policiais que estão nas ruas, é evidente que a falta de uma carreira estruturada, de salários dignos e de um bom treinamento, impactam na ponta e na convivência com a periferia, além da prevenção ainda ser uma política melhor de segurança, e a gente não vê alternativa em termos de educação e projetos sociais, chances e oportunidades que acabem com o crime na periferia.

DCM: E o que você pensa sobre a reforma da Previdência?

Tábata Amaral: Recebemos a proposta do governo e já identificamos pontos que devemos atuar para mudar completamente. Mas, antes de criticar ponta a ponta, eu vou me debruçar sobre isso para apresentar a nossa proposta, acho importante falar sobre a minha visão nesse assunto.

Entendo a necessidade de uma reforma da Previdência, entendo que a nossa sociedade está envelhecendo mais rápido, tem uma quantidade menor de jovens, etc, mas temos que aproveitar essa oportunidade para não para cortar direitos de quem mais precisa. E sim para cortar privilégios de corporações que recebem aposentadorias gigantescas. Essa é a minha visão: vamos aproveitar essa oportunidade para garantir direitos com equidade e mais para cortar privilégios. Pelo que vi, a reforma proposta por Bolsonaro não contempla isso em sua integridade. A gente vai ter um trabalho bem grande pela frente.

DCM: Quais propostas você gostaria de discutir com prioridade na Câmara?

Tábata Amaral: Tenho duas frentes prioritárias: educação e mulheres. Na educação, eu já falei, tem que renovar o Fundeb, aproveitar a oportunidade para espalhar boas práticas no Brasil, para colocar o Fundeb na Constituição, para torná-lo mais redistributivo e quero falar de alfabetização, carreira de professor e do jovem de maneira geral.

Como o ensino médio e técnico se torna um lugar de gestação de sonhos e projetos de vida, não um local de aniquilação de sonhos, onde você determina apenas um caminho para cada jovem.

Na frente das mulheres, tem duas áreas que são muito preciosas para mim. Uma delas é como a gente aumenta a participação delas na política, aprofunda nossa democracia e faz com que seja uma ação de fato inclusiva, o que não acontece hoje. E a outra ideia continua sendo o combate contra a violência que as mulheres sofrem. Enquanto as meninas estiverem tão inseguras e enquanto o feminicídio estiver em índices tão altos, não dá pra falar em oportunidades iguais, não dá pra falar em educação, não dá pra falar de trabalho.

Pra mim esse é um assunto que não é negociável e eu espero que a gente consiga levar esse tema além da polarização.

DCM: Quer acrescentar algo?

Tábata Amaral: Gostaria de falar um pouco sobre o gabinete itinerante. Ele é uma proposta que resume muito o que eu acredito na política. A partir de março, estaremos com um trailer com a nossa biblioteca ambulante para de fato levar o mundo político para as pessoas.

A ideia é, em cada sábado, visitar uma cidade de um estado diferente para levar formação política, ouvir as pessoas e debater e provar que isso se faz de fato na comunidade e não aqui nos prédios em Brasília.

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O DCM perguntou como se encerrou o episódio do filho de um colega que ocupou o apartamento funcional de Tábata no começo de 2019. Tábata não nos respondeu diretamente, mas sua assessoria enviou uma nota:

No dia 29 de janeiro, a deputada Tábata Amaral (PDT-SP) recebeu um Termo de Ocupação do Imóvel da Câmara dos Deputados assinado pela 4ª Secretaria da Casa. Ao chegar ao local, acompanhada do funcionário da Câmara, deparou-se com o filho do deputado Hildo Rocha (MDB-MA) no imóvel. Os documentos que comprovam que Tabata agiu conforme regras da Casa estão na Comissão de Ética.

O DCM também pediu a Tábata uma foto dela quando criança ou adolescente na Vila Missionária. Ela disse que não tem. Isso diz muito sobre a vida na periferia: os registros fotográficos são poucos.

ATUALIZAÇÃO às 13hrs de 25/02/2019: Após a publicação da entrevista, a assessoria da deputada entrou em contato para dizer que está digitalizando as fotos dela e que, por isso, não disponibilizou imagens da sua infância e adolescência na periferia. Assim que a assessoria enviar pelo menos uma foto, ela será publicada.

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Publicado originalmente em 24/02/2019, republicado agora em razão da enquadrada que ela deu no ministro da Educação, Ricardo Velez Rodríguez.

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