Tarcísio foge da Papudinha e expõe a relação de conveniência com Bolsonaro

Atualizado em 21 de janeiro de 2026 às 17:36
Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. Foto: AFP

O adiamento da visita que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), faria a Jair Bolsonaro na Papudinha provocou incômodo entre aliados próximos do ex-presidente. A visita havia sido solicitada por por meio de seus advogados e já contava com autorização judicial.

Segundo o blog da Julia Duailibi no g1, interlocutores do ex-presidente classificaram a decisão como “muito ruim” e interpretaram o gesto como falta de consideração e respeito. Um aliado criticou a nota do Palácio dos Bandeirantes por falar apenas em adiamento, sem indicar nova data.

Outro questionou: “Onde [o governador] vai estar que não pode visitar o líder, amigo dele, preso? O que seria mais importante do que isso?”.

Em nota, o governo paulista afirmou que a visita foi “adiada a pedido do governador para cumprimento de compromissos em São Paulo” e que uma nova data ainda será solicitada. A agenda citada não foi detalhada, e até o momento não houve confirmação de quando o encontro será remarcado.

Tarcísio de Freitas. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Segundo pessoas próximas a Tarcísio, o desconforto do governador estaria relacionado ao teor da conversa prevista. A ideia inicial seria uma visita de solidariedade, com relato de esforços para tentar a transferência de Bolsonaro para prisão domiciliar, incluindo contatos com ministros do Supremo.

O governador teria se irritado ao perceber que poderia ser pressionado a apoiar de forma mais explícita a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência. Outros interlocutores de Tarcísio dizem que ele está “cansado de levar rasteiras” de integrantes da família Bolsonaro.

A visita havia sido autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes e ocorreria na quinta (21), entre 8h e 10h. Mais cedo, Tarcísio chegou a confirmar o encontro em evento no interior paulista. “Vou lá visitar um amigo, sobretudo um grande amigo, uma pessoa que eu tenho muita consideração”, disse o governador.

Na mesma decisão, Moraes autorizou ainda visitas de Diego Torres Dourado, cunhado de Bolsonaro, e do pecuarista Bruno Scheid, vice-presidente do PL de Rondônia.

Vale lembrar que Tarcísio não é uma vítima ocasional dessa relação. Trata-se de um político que chegou ao governo de São Paulo pelas mãos de Jair Bolsonaro, a quem sempre serviu, mesmo sendo um quadro sem raízes no estado, a ponto de nem conhecer a escola onde votou.

O governador construiu sua trajetória como um liderado obediente, avesso ao confronto e disposto a se moldar ao projeto bolsonarista enquanto isso lhe fosse conveniente. Do outro lado, Bolsonaro tem um histórico conhecido de abandonar aliados quando deixam de ser úteis, empurrando-os para o desgaste público sem qualquer cerimônia. O episódio expõe uma disputa entre personagens movidos por cálculo e autopreservação, sem espaço para ingenuidade: neste jogo, não há bonzinhos.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.