Tarcísio trata como amizade a subserviência a Bolsonaro. Por Moisés Mendes

Atualizado em 22 de janeiro de 2026 às 6:15
Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em ato na Avenida Paulista. Foto: Nelson Almeida/AFP

Tarcísio de Freitas pode ser um ingrato, assim como pode ter sido amador, mais uma vez, e pode também ter cometido desaforos deliberados ao comentar, nesta semana, a visita agora adiada que faria a Bolsonaro na Papudinha.

O governador esclareceu, em nota à imprensa, que a visita não acontecerá mais por ter outros compromissos em São Paulo. Na terça-feira, ele havia dito o seguinte, quando da entrega de casas em São José da Bela Vista:

“Eu vou lá visitar um amigo, sobretudo um grande amigo. Uma pessoa por quem eu tenho muita consideração. Vou lá manifestar a minha solidariedade, manifestar meu apoio, ver se ele está precisando de alguma coisa e reforçar que ele vai sempre poder contar comigo”.

Tarcísio trata Bolsonaro sobretudo como grande amigo, uma pessoa por quem tem muita consideração. Mas o bolsonarismo raiz espera que ele se refira sempre a Bolsonaro como líder.

A outra possível barbeiragem, mesmo que tenha sido muito bem pensada como desculpa, é a que explica o adiamento da visita pelos compromissos assumidos em São Paulo.

Tarcísio não visita o amigo desde setembro. Que outros compromissos, nesse momento em que o governador se reafirma como CEO vacilão, seriam mais importantes do que a visita a Bolsonaro preso?

Tarcísio coloca a visita em segundo plano, em relação a outras tarefas, e avisa que outra data será solicitada a Bolsonaro, quando se sabe que foi Bolsonaro quem pediu a visita e pode ter optado pelo adiamento.

Por que o criador chamou a criatura? Para dizer que Flávio é o ungido e que não haverá recuo na candidatura do filho? Para pedir que Tarcísio deixe de tentar agradar o centrão e declare logo apoio a Flávio?

Uma outra hipótese, que não pode ser descartada, é a de que Bolsonaro pode dizer a Tarcísio que mantenha o cavalo encilhado para uma candidatura de última hora à Presidência.

Bolsonaro pode ser um desastre como articulador de ações políticas, incluindo as que envolvem golpes, mas não pode ser tão estúpido a ponto de desprezar Tarcísio como um plano B, mesmo que Flávio tenha se afirmado nas pesquisas como um nome competitivo.

Tarcísio ao lado de Flávio e Jair Renan em visita a Bolsonaro em prisão domiciliar. Foto: Gabriela Biló/Folhapress

É improvável que Bolsonaro não considere, em conversa com o extremista moderado, a possibilidade de escolhê-lo para enfrentar Lula. Com um detalhe: Tarcísio talvez não tenha bravura e armas para participar dessa guerra.

O amigo de Bolsonaro só existe como político por ter sido ungido pelo chefe da organização criminosa, como o próprio Tarcísio já admitiu em discurso em cima de um caminhão na Avenida Paulista.

Se Flávio falhar, Tarcísio se submeteria às ordens de Bolsonaro, com a bênção do centrão, da Globo, da Folha, do Estadão, da Fiesp, do que sobrou do bolsonarismo militar e da Faria Lima que trabalha para o PCC?

Tarcísio diria a Bolsonaro que, mesmo inseguro, enfrentaria Lula, se Flávio fosse abandonado pelo centrão até março? O vacilão pode dizer não ao amigo por quem tem sobretudo muita admiração?

Pela sequência do que aconteceu até aqui, é possível concluir o seguinte: Tarcísio não abre o voto de forma categórica para Flávio e não diz que irá apoiá-lo de forma incondicional porque São Paulo não é o Rio, e os paulistas não têm tanto apreço pelos Bolsonaros. Têm pela direita em geral, mas não especificamente pela família.

A marca Bolsonaro está gasta, e as pesquisas mostram que Flávio não é um nome capaz de mobilizar, na arrancada, num primeiro turno, a extrema-direita e a direita.

Mas, no fundo, Tarcísio torce para que Flávio siga em frente, como mostra a pesquisa Atlas, para que ele, o CEO vacilão, dispute uma reeleição considerada tranquila em São Paulo.

O amigo presidiário de Tarcísio não tem mais a força que já teve, mas é com ele que o governador tem dívidas impagáveis. O encontro adiado terá que acontecer em algum momento.

E aí Bolsonaro irá esclarecer: eu sou o seu criador, seu chefe, seu líder, seu mentor, e na família você tem só uma pessoa que pode tratar como amiga, dona Michelle.

O resto, dirá Bolsonaro, não confia em você, como eu mesmo não confio. O resto da família o considera um sujeito inconfiável, por não saber o que quer e por tratar como amizade o que é dependência, subserviência e subalternidade absolutas.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/