Tarifaço faz preço do café disparar 35% e afeta consumidores nos EUA

Atualizado em 29 de agosto de 2025 às 12:30
Processamento de café. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao café brasileiro provocou uma disparada inédita nos preços do grão no mercado internacional. Como o Brasil é o maior produtor do mundo, o redirecionamento de cargas e renegociações impactou toda a cadeia, levando os futuros do arábica a saltarem quase 35% em agosto, a maior alta mensal desde 2014.

Segundo a coluna de Graciliano Rocha no UOL, o preço da libra passou de US$ 2,842 (cerca de R$ 15,4 mil) no início do mês para US$ 3,757 (cerca de R$ 20,4 mil) no fechamento de ontem, mesmo em plena colheita brasileira, quando a oferta deveria pressionar os preços para baixo.

Segundo a Cooxupé (Cooperativa de Guaxupé), a colheita no sul de Minas já alcançou 91% das lavouras, mas, apesar da oferta elevada, os preços internos também subiram, com a saca de arábica fechando a R$ 2.390,00, de acordo com a Minasul.

A incerteza provocada pela tarifa gerou corrida por lotes ainda isentos e encareceu o frete, fatores que aumentaram os custos para toda a cadeia. Nos EUA, gigantes como J.M. Smucker, Keurig Dr Pepper e Westrock Coffee já sinalizam repasses de preços ao consumidor no inverno do hemisfério Norte.

Para Ricardo Schneider, presidente do Centro de Comércio do Café de Minas, a alta também é explicada por riscos climáticos, relatos de safra abaixo do esperado e insegurança quanto à próxima colheita.

“Se o industrial americano vê risco de não conseguir café brasileiro nos próximos seis meses, ele se protege comprando contratos na Bolsa de Nova York”, explicou. Essa busca por proteção ampliou a pressão sobre as cotações internacionais.

Donald Trump, presidente dos EUA, anunciando o tarifaço. Foto: Reprodução

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estimou a safra de 2024 em 54,2 milhões de sacas. Apesar disso, produtores e cooperativas em Minas registram ligeira queda de rendimento em relação ao ano anterior, o que reforça a percepção de oferta mais apertada.

Segundo Schneider, o fluxo de comercialização segue, mas contratos de exportação estão mais curtos e embarques para os EUA têm sido adiados ou renegociados devido à sobretaxa.

Na prática, o tarifaço reduziu a competitividade do café brasileiro, estimulou compras de origens alternativas como Colômbia e América Central e valorizou lotes que chegarem aos EUA antes de 5 de outubro, isentos da taxa.

O redirecionamento de cargas para Europa e Ásia também ganhou força. “Se houvesse certeza de que a regra é definitiva, o mercado se ajustaria. Mas a incerteza é sempre ruim”, destacou.

O impacto é considerado inflacionário para os EUA, já que 30% do café verde importado pelo país vem do Brasil. Como o grão entra quase totalmente como matéria-prima para torrefação local, a tarifa não cumpre objetivo de proteger empregos industriais. “O café brasileiro é vital para os blends vendidos no varejo americano”, ressaltou Schneider.

A comparação com o suco de laranja mostra contradições da política de tarifas. Enquanto o produto foi poupado, o café sofreu a sobretaxa. Segundo Schneider, a diferença está na força de atuação dos exportadores e na urgência do mercado de sucos, mais concentrado e perecível.

No café, o setor também enviou informações sobre impacto, mas ainda não houve avanço diplomático. A grande dúvida agora é quem dará o primeiro passo: se o governo brasileiro irá negociar diretamente ou se o presidente estadunidense recuará diante da pressão inflacionária.

“Já vemos comentários sobre encarecimento do café, mas não há sinalização de mudança até agora”, afirmou Schneider.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.