Tarifas de Trump à Europa mostram que estratégia de bajulação é um fracasso

Atualizado em 18 de janeiro de 2026 às 18:04
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O anúncio de novas tarifas pelo presidente dos Estados Unidos expôs o fracasso da estratégia adotada pela União Europeia ao lidar com Donald Trump. O episódio mais recente envolve sanções comerciais a países que manifestaram apoio à Groenlândia, território autônomo do Reino da Dinamarca, caso não aceitem negociar sua venda aos EUA.

Na quinta-feira, no Chipre, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, voltou a se referir aos EUA como “aliados” e “parceiros”. A declaração foi feita apenas um dia depois de o governo dinamarquês alertar publicamente que Trump estaria disposto a “conquistar” a Groenlândia. O contraste evidenciou o reflexo automático da cúpula europeia de preservar a retórica amistosa, mesmo diante de sinais claros de hostilidade imperialista.

O anúncio de Trump no fim de semana — impondo tarifas a oito países que apoiaram a Groenlândia, entre eles seis membros da União Europeia, além de Noruega e Reino Unido — foi visto como mais um golpe na ideia de parceria estratégica. O episódio demonstra que a política de bajulação e concessões adotada pela UE não conteve o ímpeto coercitivo da Casa Branca.

O principal símbolo desse fracasso foi o acordo comercial assinado por von der Leyen com Trump em julho do ano passado, no campo de golfe de Turnberry, na Escócia. Pelo acordo, a União Europeia zerou tarifas para diversos produtos americanos, enquanto aceitou taxas de 15% sobre vários bens europeus e de 50% sobre o aço. Após anos defendendo seu peso como potência comercial, Bruxelas passou a ser vista como tendo aceitado um acordo amplamente favorável aos Estados Unidos.

Von der Leyen justificou a decisão à época alegando que o pacto garantiria “estabilidade crucial” nas relações com Washington em um mundo marcado por instabilidade. Agora, porém, esse argumento perdeu força. Além de o benefício tarifário prometido aos EUA poder nem sequer ser implementado, o acordo passou a ser duramente criticado dentro do próprio Parlamento Europeu, unindo desde a esquerda radical até a extrema direita.

O líder do partido francês Reagrupamento Nacional, Jordan Bardella, classificou as ameaças de Trump como “chantagem comercial” e defendeu a suspensão imediata do acordo. Já Manfred Weber, líder do Partido Popular Europeu, alinhou-se a outras forças centristas ao pedir a interrupção do processo de ratificação.

Nos bastidores, a aceitação do acordo desigual tinha um motivo pouco explicitado: o receio de perder o apoio americano à Ucrânia em sua guerra contra a Rússia. A Europa ainda depende fortemente dos EUA em áreas como inteligência e capacidade militar, resultado de décadas de baixo investimento em defesa. O ex-primeiro-ministro da Letônia, Krišjānis Kariņš, resumiu o dilema ao afirmar que a dependência de segurança torna os líderes europeus relutantes em criticar Trump e, ao mesmo tempo, hesitantes em explicar isso às suas populações.

Von der Leyen e Trump

Agora, no entanto, cresce a percepção de que Trump pode ter ido longe demais. Embora a Groenlândia tenha deixado a Comunidade Europeia em 1985, aceitar qualquer forma de coerção sobre o território de um Estado-membro da UE seria um sinal devastador para a credibilidade do bloco como ator geopolítico — especialmente em um momento em que Bruxelas tenta sustentar seu apoio à Ucrânia com base na defesa da soberania territorial.

Diante disso, multiplicam-se os apelos para que a União Europeia acione seu chamado instrumento anticorrupção econômica — conhecido informalmente como a “grande bazuca”. Criado originalmente para responder a pressões da China, o mecanismo permitiria impor restrições amplas a bens e serviços americanos, além de suspender investimentos e proteções de propriedade intelectual.

A França, tradicional defensora de uma postura mais dura frente a Washington, já defendeu o uso do instrumento caso Trump avance com as tarifas. O problema é que o mecanismo é lento e complexo: a adoção de sanções pode levar cerca de um ano e exige apoio de ao menos 55% dos Estados-membros, representando 65% da população do bloco.

Em 2025, quando Trump lançou suas chamadas tarifas do “dia da libertação”, líderes europeus prometeram uma resposta firme, mas divergências internas e o medo de retaliações acabaram levando a UE novamente ao caminho do apaziguamento. Com a relação transatlântica atravessando mudanças profundas após oito décadas, as próximas semanas devem indicar se, desta vez, a Europa está disposta a abandonar a estratégia de concessões — ou se seguirá tentando preservar uma aliança que Trump parece disposto a minar.