Temer mordeu o cachorro no encerramento da Rio 16 e a mídia fingiu não ter visto. Por Paulo Nogueira

O premiê japonês de Mario no encerramento dos Jogos: e Temer, cadê?
O premiê japonês de Mario no encerramento dos Jogos: e Temer, cadê?

Falei já algumas vezes do jornalismo de guerra.

Foi a expressão usada pelo editor do jornal argentino Clarín para designar a caça a Cristina Kirchner.

Você pode tomar também como uma confissão.

No Brasil, nada define tão bem o que as grandes empresas de mídia fizeram e fazem contra Lula, Dilma e o PT como jornalismo de guerra.

Basicamente, os barões da imprensa se autoconcedem o direito de mentir, distorcer, manipular, omitir qualquer coisa em nome do sagrado interesse da plutocracia. A verdade, a ética, a decência de nada valem.

Nas Olimpíadas, tivemos um caso notável de jornalismo de guerra: a maneira como foi tratado o comportamento de Temer.

Não houve um único editorial que analisasse a fuga de Temer. Não estou dizendo um editorial que criticasse: que simplesmente analisasse. Podia ser até um texto que apoiasse e justificasse.

Mas não. Um silêncio intransponível, como se fosse um tema de uma banalidade avassaladora.

E os comentaristas, os chamados fâmulos dos patrões? Como bobos não são, se abstiveram de tocar no assunto. Foram tão medrosos quanto Temer.

É uma anomalia, é uma aberração um chefe de governo não passar na cerimônia de encerramento a tocha a seu par do país que receberá os próximos jogos. É uma quebra de protocolo de proporções ancestrais e planetárias.

Você pode ver o tamanho da importância deste ritual pela forma como o Japão recebeu a tocha. No Maracanã estava o primeiro ministro Shinzo Abe, vestido do heroi de videogames Mario, uma criação japonesa.

E Temer, onde estava? Desaparecido. A transmissão foi feita por Rodrigo Maia, que só aceitou a incumbência depois de lhe garantirem que não teria que dizer uma só palavra.

Um covarde salvando outro. Por medo do povo.

Vazaram relatos jornalísticos do desconforto do premiê japonês. Tente entrar na cabeça de Abe. Que outro compromisso poderia justificar a ausência de Temer numa noite tão fora do comum?

Alguém deve ter lhe dito, nos bastidores: é medo. É paúra. É covardia.

Para um país que preza tanto o código de honra dos samurais, a atitude de Temer não poderia ser mais desprezível.

O sumiço de Temer foi um episódio absolutamente insólito. Você conhece a definição do que é notícia e do que não é. Notícia é quando um homem morde um cachorro. Quando um cachorro morde um homem, não é notícia. Essa frase de genialidade fulgurante foi cunhada pelo grande jornalista americano John B. Bogart, no final dos anos 1800.

Pois Temer mordeu o cachorro. E o jornalismo de guerra fingiu não ter visto.

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