
A revista ‘The Economist’ avaliou que o Brasil possui vantagem estratégica diante da crise energética global provocada pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Em artigo publicado nesta quinta-feira (26), a publicação norte-americana afirmou que “o Brasil tem uma arma secreta contra choques do petróleo” e que “os biocombustíveis vão ajudar o país a enfrentar os efeitos do conflito no Oriente Médio”.
O cenário internacional tem sido pressionado pela alta do petróleo e do gás, após o início da guerra em 28 de fevereiro e o bloqueio do Estreito de Ormuz, rota por onde circula cerca de 20% da energia mundial. O barril do tipo Brent voltou a superar os US$ 100, com picos acima de US$ 110 nos últimos dias.
A instabilidade geopolítica também tem influenciado o mercado. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que existem negociações em andamento, enquanto autoridades iranianas negam qualquer diálogo. O ambiente de incerteza mantém os preços sob pressão.
Segundo a análise, poucos países estavam preparados para um choque desse tipo, mas “o Brasil estava”. Isso se deve ao investimento contínuo em fontes alternativas, que resultou na construção de “a indústria de biocombustíveis mais sofisticada do mundo”.
O texto destaca que os biocombustíveis fazem parte da estrutura energética brasileira. “Eles são misturados à gasolina e ao diesel, com percentuais obrigatórios definidos pelo governo de 30% e 15%, respectivamente, entre os mais altos do mundo”.

Outro ponto citado é a frota de veículos no país. “Três quartos dos veículos leves no Brasil possuem tecnologia que permite rodar com qualquer mistura, desde gasolina pura até etanol 100%”. Essa característica amplia a flexibilidade do consumo interno.
A publicação também aponta impacto nos preços. “Isso reduz a dependência do Brasil de combustíveis fósseis importados e protege o país contra mercados inflacionados. O preço da gasolina nos postos brasileiros subiu 10% desde o início da guerra, e o do diesel, 20%, segundo dados divulgados em 20 de março pelo regulador de energia. É um aumento doloroso, mas muito abaixo dos saltos de 30% a 40% observados nos Estados Unidos.”
A estratégia brasileira teve origem na década de 1970, durante outra crise do petróleo. “Na época, o Brasil importava 80% do combustível que consumia; o embargo árabe estava sufocando a economia. Transformar o excedente de cana-de-açúcar em etanol foi uma solução óbvia”.
O artigo menciona ainda políticas recentes, como o incentivo ao biodiesel, e destaca o papel do presidente Lula. “Lula vê os biocombustíveis como solução para dois problemas. Primeiro, reforçam a soberania de um país que, apesar de ser um dos maiores exportadores de petróleo bruto do mundo”.
“Segundo, permitem ao Brasil reduzir as emissões de gases de efeito estufa sem alienar os agricultores, que produzem as matérias-primas dos biocombustíveis”, afirma.
Apesar da vantagem, a revista faz uma ressalva. “Os biocombustíveis não podem eliminar totalmente os custos provocados pela alta do petróleo”. Ainda assim, a avaliação é que o Brasil entra no cenário atual com maior capacidade de absorver impactos e com potencial de ampliar sua relevância no mercado global de energia.