“The handmaid’s tale”: estamos muito mais próximos de Gilead do que parece. Por Larissa Bernardes

Offred durante a “cerimônia” (Foto: Divulgação)

Blessed be the fruit. May the Lord open.

The Handmaid’s Tale é uma série estadunidense que vem fazendo sucesso e gerando muito debate desde sua estreia, em abril de 2017.

Produzida pelo canal de streaming Hulu, é baseada no livro homônimo publicado em 1986 pela escritora Margaret Atwood.

Vencedora de oito Emmys e dois Globos de Ouro, The Handmaid’s Tale teve o último episódio de sua segunda temporada exibido em julho.

ALERTA DE SPOILER: Se você ainda não viu todos os episódios, corra lá maratonar e depois volte aqui.

A história fala sobre um futuro distópico na República de Gilead, uma nação patriarcal e militarizada que tomou o lugar dos Estados Unidos e tem a bíblia como Constituição.

Com a taxa de natalidade baixíssima, mulheres férteis são usadas para procriação e devem ceder seus filhos às famílias poderosas. Em outras palavras, o estupro é regulamentado por lei.

Na ficção, as mulheres têm seu corpo tomado pelo Estado. Elas são divididas em castas: as “aias” servem os militares para a procriação. As “marthas” são as empregadas domésticas. E as “esposas” estão acima das outras mulheres, mas também são submetidas às rígidas leis de Gilead e aos seus maridos, os comandantes — não podem nem ler, por exemplo.

Todas elas usam uniformes de acordo com sua posição na sociedade. Vermelho para as aias, bege para as marthas e azul para as esposas.

Embora a história seja considerada uma distopia, as semelhanças com a realidade são assustadoras.

“Se eu ia criar um jardim imaginário, eu queria que os sapos nele fossem reais. Uma das minhas regras era que eu nunca colocaria nenhum evento no livro que já não tivesse acontecido no que James Joyce chamou de “pesadelo” da História, nem nenhuma tecnologia que já não estivesse disponível. Nenhum dispositivo imaginário, nenhuma lei imaginária, nenhuma atrocidade imaginária. Deus está nos detalhes, dizem. E o Diabo também”, escreveu Margaret Atwood na introdução da nova edição do livro.

Além da qualidade artística e técnica, a série é importantíssima justamente por escancarar as atrocidades enfrentadas por mulheres em todo o mundo.

Confira alguns paralelos entre a ficção e a realidade

Maternidade compulsória

Offred carrega a filha que teve que gerar para o comandante e sua esposa (Foto: Divulgação)

Na série, Offred (interpretada pela incrível Elisabeth Moss) e as outras aias são obrigadas a carregarem os filhos da classe dominante.

Por aqui, as mulheres lutam para superar o tabu da maternidade. Apenas recentemente o assunto começou a ser encarado como escolha pessoal e não mais como algo indispensável para a realização feminina.

Corpo pertencente ao Estado

Em The Handmaid’s Tale, Gilead é dona dos corpos femininos, que são usados como “receptáculos” para a procriação.

Ainda não chegamos nesse ponto, mas isso não quer dizer que o Estado não mande nos corpos das mulheres.

A criminalização aborto exemplifica isto: apesar de ser uma pauta antiga do movimento feminista, as mulheres em inúmeros países ainda lutam para conquistar o direito de escolher o que fazer com o próprio corpo.

No Brasil, o aborto é permitido apenas em casos de estupro ou acefalia, mas até isso está sendo questionado pelos políticos.

Estupro e violência doméstica

Todos os meses as aias são estupradas por seus comandantes (Foto: Divulgação)

Como foi dito, na série o estupro é regulamentado pelo Estado. A violência doméstica é uma prática totalmente aceitável, tendo em vista que as esposas devem seguir às regras de seus maridos.

De acordo com dados do Instituto Maria da Penha, a cada 2 segundos uma mulher sofre agressão física ou verbal no Brasil. Outras pesquisas apontam que a cada 11 minutos, uma é estuprada.

Criminalização da homossexualidade

No show, lésbicas e gays são considerados “traidores do gênero” e a pena para tal crime pode ser a morte.

O tratamento destinado à homossexuais em Gilead tem muita relação com a vida real. Espancamentos, estupros corretivos, exclusão social e até assassinato acontecem diariamente no Brasil e no mundo contra homossexuais. Em muitos países a homossexualidade ainda é crime.

O que nos leva ao próximo tópico…

Mutilação genital feminina

Emily após ter seu clitóris removido (Foto: Divulgação)

Emily (vivida por Alexis Bledel, de Gilmore Girls) é lésbica e teve um relacionamento com uma martha. Por causa disso, teve seu clitóris removido por Gilead.

A mutilação genital feminina acontece em alguns países da África e é discutida por várias organizações de direitos humanos. Sim, isso ainda existe. E acontece com crianças.

Há quem use a carta da “tradição cultural” para justificar essa prática, que é a expressão mais crua da misoginia.

Casamento infantil

Durante a segunda temporada do seriado, acontece um casamento coletivo entre militares de Gilead e meninas escolhidas pelo Estado. Todas elas na faixa dos 15 anos.

Casamento entre adultos e crianças acontece em diversas regiões e culturas. O Brasil, inclusive, é o 4º país do mundo com maior número de casamentos infantis.

Estes são apenas alguns exemplos que mostram o quanto a série é atual e necessária.

O movimento feminista e organizações pelos direitos humanos tentam nos livrar de uma Gilead da vida real, mas, sem o envolvimento de todos nesta luta, estamos cada vez mais próximos do horror.

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