Tirei o canivete da bolsa quando vi que autodefesa não resolve o problema dos feminicídios. Por Nathalí Macedo

Destruição de armas no Rio de Janeiro

Um dia inventei de andar com uma arma branca na bolsa. Um canivete amarelo, discretinho, presente de um amigo. “Pro caso de um cara te atacar”, ele disse. “Ok”.

Daí que eu passei a viver ainda mais amedrontada com aquele treco na bolsa. Porque eu sabia que não enfiaria um canivete na jugular de ninguém – nem mesmo movida pelo medo de ser estuprada – , mas um cara qualquer que me abordasse com más intenções poderia enfiar na minha jugular o meu próprio canivete.

Deusa me livre.

Então eu tirei o canivete da bolsa quando entendi que autodefesa feminina não resolve o problema dos estupros/feminicídios do mesmo modo que “armar os cidadãos de bem” não resolve o problema da violência no Brasil – alô, bolsominions.

Nos Estados Unidos, onde é fácil adquirir uma arma tanto quanto um taco de beisebol, um homem matou cinquenta e nove pessoas em uma casa noturna em Las Vegas, suicidando-se em seguida.

“Isso parece terrorismo”, dirão os islamofóbicos, mas o fato é que nem mesmo a matéria mal-intencionada do Jornal Nacional sobre o massacre conseguiu encontrar indícios (e olha que devem ter procurado muito bem) de que o atirador em questão era um terrorista, ou um muçulmano, ou que tivesse qualquer relação com o Estado Islâmico.

Massacres acontecem em Vegas, acontecem em Realengo, acontecem na Rocinha, acontecem aí mesmo, muito perto de você. Massacres acontecem porque há material bélico para que massacres aconteçam. Massacres acontecem porque há pessoas adoecidas – pela religião, pelos próprios traumas, pela síndrome dos pequenos poderes (oi, Polícia Militar), seja pelo que for – e que têm acesso a material bélico para cometerem massacres.

Agora imaginemos um Brasil com armas liberadas pra geral. Um Brasil doente – tão doente que pede intervenção militar contra comunismo (?). Tão doente que Jair Bolsonaro, a figura mais asquerosa do cenário político brasileiro, tem grande margem de intenções de voto para presidente.

Imaginemos um Brasil como este legalmente armado: Seriam 59 mortos (ou mais) por dia.

Lembro do quanto fiquei estarrecida com uma matéria – grandes matérias do jornalismo brasileiro! – que dizia que um cara matou o outro porque foi fechado no trânsito. Em um ataque de fúria, ele simplesmente destruiu o carro do coleguinha e atacou-o a pauladas.

Teve também o caso da médica que esmagou dois jovens em uma motocicleta porque fizeram uma besteira qualquer no trânsito. E o massacre de Realengo. E o massacre do Cabula, em Salvador. E a história de um cara que matou o outro em um bar porque teve negado um punhado de carne do sol, na minha cidade natal.

No Brasil, mata-se por muito pouco.

E onde se mata por muito pouco, matar precisa ser, no mínimo, mais trabalhoso.